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20.7.09

LEONARDO DESCONHECIDO

Leonardo da Vinci foi um dos maiores desenhadores, pintores, inventores, criativos, engenheiros, enfim, um génio artista possuindo um QI e uma imaginação criativa que duvido tenham sido alcançadas, quanto mais ultrapassadas...


Ainda bem que esteve sob a protecção de vários senhores e governantes feudais, pois se fora "freelancer", como Galileu Galilei, por exemplo, possivelmente não teria chegado a idade tão avançada, pois em 1500 qualquer coisa que desafiasse o convencional era considerada herética e o seu autor esquartejado, decapitado, queimado vivo ou lançado aos leões... ( mmm... esta última talvez não, isso era mais moda no Império Romano, alguns séculos antes e não nas Repúblicas Venezianas do século XVI ).

Por volta de 1500 Vasco da Gama conseguira navegar até à Índia, Colombo rumara na direcção oposta e achara ter também chegado à Índia, só que os índios eram outros (Sioux, Apaches, Comanches, Iroqueses,...), Lisboa era a cidade mais rica da Europa, Portugal e Espanha dividiram o mundo entre si em Tordesilhas, sob a bênção do Papa. Michelângelo acabara a Pietá e fora contratado para viver mais de 6 meses sem descer dos andaimes que mandara instalar a meio metro do tecto para, deitado de costas, pintar os tectos da Capella Sixtina. Maquiavel, Erasmo de Roterdão, Martinho Lutero destacavam-se na política, filosofia e teologia.

Guttenberg soltara um palavrão quando entalou o dedo na prensa que inventara, para se passar a poder editar livros rapidamente, imprimindo exemplares perfeitamente idênticos entre si, enquanto Henrique VIII já "despachara" duas das suas 6 mulheres.

Fernão de Magalhães, que para mim (e para muitos outros portugueses, decerto), foi o nosso mais ilustre navegador, porque foi movido pela ciência, cartografia, geografia e sede de conhecimento (ao invés da quase totalidade dos outros, apenas buscando o lucro fácil através do saque, subjugação, escravatura, e outras práticas menos "civilizadas"), foi o primeiro a fazer a circum-navegação do Globo, encontrando a passagem para o Pacífico nos estreitos da Terra do Fogo ( extremo austral da América do Sul ), assim como a sua morte, devido a um mal-entendido com os nativos.

Depois deste "plano geral" da época, queria lembrar que Da Vinci não pintou só a Gioconda (Mona Lisa) e a Última Ceia de Cristo, mas foi o inventor da BICICLETA (fig. 1), do PÁRA-QUEDAS (fig. 2),
do SUBMARINO, do TANQUE de GUERRA, do ULTRA-LEVE (fig. 3),
da BIELA - MANIVELA, da RODA DENTADA e ENGRENAGENS (fig. ), dos ROLAMENTOS de ESFERAS (fig. ), do BARCO de PÁS (fig. ), do CARRINHO de MÃO SEMI-AUTOMÁTICO, de ENGENHOS BALÍSTICOS de vária ordem, e... do AUTOMÓVEL (fig. ). !!!!!!

Podem ler de novo. Eu espero.

Como sou músico, e porque é precisamente esta a faceta do Mestre dos Mestres mais desconhecida, é esta a razão principal para este artigo que escrevi e aqui publico: Leonardo também era Músico! E, como não poderia deixar de ser, inventou vários instrumentos e adaptou mecanicamente outros!
Três exemplos:
1 - Aquilo que designamos por "CAIXA de RITMOS", teve origem ( na vertente mecânica, claro, pois a electricidade apenas chegaria uns séculos mais tarde... ) no seu TAMBOR AUTOMÁTICO (fig. ).

2 - Os teclados portáteis, sintetizadores, pianos digitais, ou aquele teclado de pendurar ao pescoço tipo guitarra, que o Herbie Hancock usava nos 70's e 80's para se levantar do piano de cauda e interagir no palco junto dos guitarristas, baixistas e sopros, fazendo solos de pé ( ou dançando... ), tiveram o seu tetra-tetra-tetra avô na sua PIANOLA AMBULANTE (fig. ).

3 - A LIRA que inventou, é que me deixou deveras perplexo. Não só pelo facto de parecer a cabeça de um habitante de Procyon-5, ou algo saído da Industrial Light & Magic, para um filme da saga Star Wars, mas porque não descortino as cordas, não vejo caixa de ressonância, afinadores, nem quero saber como se pegava naquilo para tocar... brrrrrr...e não morde?



Bem, numa banda de trash-heavy-hard-metal-depressive-post-punk-rock-gunge-F..kDaNotesDaScalesDaTempo&DaMusic&Ourselves, se calhar os fans delirariam... (figs. ).






Para além de outras invenções destinadas às artes de palco, contam-se também PALCOS GIRATÓRIOS e/ou ELEVATÓRIOS, entre uma miríade de esboços que deixou, muitos dos quais ainda em estudo e por decifrar tanto o engenho em si, como a sua função...



Ou era alienígena ou um mutante, o fabuloso LEONARDO DA VINCI !

22.11.06

Sentir e praticar o Jazz - 2ª parte

• Estabelecendo o ponto da situação, verificamos:
A estética Jazzística que tomei como definidora do rumo a percorrer é formada por elementos provenientes de diferentes estilos fundamentais dentro da história cronológica do Jazz. Funcionam como as fundações de uma casa, e como pilares de sustentação, temos:
• Mainstream (ou middle-jazz) e Swing
• Blues (Worksongs, Gospel e Early Blues)
• Be Bop (+ Funk Jazz, West Coast e Soul Jazz)
• Free (e New Thing)

acrescentaria:
ETNO JAZZ
Esta outra componente consiste em adoptar elementos e referências pertencentes às músicas étnicas, utilizando escalas menos habituais, como a árabe, bizantina, flamenco, oriental, hindu, as pentatónicas africanas, etc..; introduzir cadências rítmicas em tempos compostos, 5/4, 11/8, 7/4, etc..., variando assim do usual quaternário ou ternário, e recordar que o Jazz alargou-se a sabores latinos, afro-cubanos, com colorações vindas das antilhas, da América do Sul, a Salsa Jazz, Bossa Jazz, assim como é de explorar a variedade tímbrica que fornecem os instrumentos étnicos, shenai, rhaita, flautas de bambú, tablas, timbales, temple blocks, darbooka, djembé, cítara, tamboura, uma miríade infindável de instrumentação utilizável, acrescentando variedade tímbrica alternativa à habitual panóplia usada pelos músicos no Jazz, sem esquecer, claro, os de criação mais contemporânea, que recorrem à electrónica, desde o órgão e o piano eléctrico aos samplers, controladores de sopro MIDI e outros processadores de som digitais.

• Neste ponto vou ao encontro daqueles que defendem que o Jazz que se faz hoje em dia deve reflectir o mundo actual em que estamos inseridos, de e-mails, ipods, gps, software & hardware, para permanecer vivo e actuante, destacando-se daquele que cumpre apenas uma função preservadora, como se de um "museu do Jazz" se tratasse.

• Relativamente à interacção com aqueles para quem a arte é criada e se destina, o músico deve estar atento ao seu público, até porque a sua arte não é um acto egoísta, criando apenas para si próprio, para quem está sobre o palco ou só para um punhado de fãns. Não se leia aqui que defendo que se o deva tornar mais simplista, mais acessível a todos, mais "vendável", mais mercantilista, pois o risco é grande de deixar de ser arte para se tornar um produto de mercado. Também uma posição radical, oposta, não é isenta de tender para a anulação da arte em si, pois penso que fechar-se num hermetismo é o mesmo que adorar o próprio umbigo, auto limitar-se, reduzir o campo de visão, e automaticamente, impedir qualquer tipo de realização artística. Coltrane afirmou: "Penso que a música pode elevar a mentalidade individual, pode desenvolver formas de pensamento superiores".
Por outro lado, algumas convicções que tomamos por inabaláveis aos 25 ou 30 anos podem e tendem a modificar-se, o tempo possibilita que observemos as questões de outras perspectivas, a partir de diferentes ângulos e pontos de vista.
Lembro-me de ver um concerto do Archie Shepp em 75 (76?) na Festa do Avante, ao tempo, ainda na Fil, ou melhor, quase só ouvir, porque entrou de costas para o público, numa atitude visivelmente de superioridade arrogante sobre o público "branco". Fez-nos ouvir o Free que praticava na altura, rude, gutural, enraivecido, revelador do seu modo de ver a sociedade e o mundo, na época.
Volvida uma década e tal depois, o mesmo Shepp brindar-nos-ia com um par de belos álbuns, um de trechos de Charlie Parker reinventados ao seu jeito, apenas com a companhia do contrabaixo do excelente NHOP, infelizmente já desaparecido, e o outro de parceria com Horace Parlan no piano, com deliciosos blues tradicionais, e ambos os registos, se não nos antípodas, porventura estão seguramente a muitos graus de longitude da música que ouvi naquele ano, na FIL. Charles Lloyd é mais um, entre muitos outros exemplos de passagem temporária e datável pelo Free.
Algo paradoxalmente, o mesmo músico pode praticar, em épocas distintas do seu percurso, estilos bem diferentes.

O Jazz é também, e sobretudo, uma música que reflete a vida de quem o toca, expressa sentimentos, emoções e vivências, um autêntico retrato sonoro da personalidade de um músico.
Nisso consiste uma das várias características ímpares inerentes ao Jazz e um dos seus imensos atractivos, para mim e para muitos outros músicos, melómanos e apreciadores em geral desta forma de arte surpreendente.
O "som da surpresa", como alguém lhe chamou.
Fim da 2ª parte (continua)
Rui Azul

nota - as ilustrações e pinturas que acompanham este texto, aliás como todas as publicadas neste blog, são originais do autor, executadas entre 1985 e 2006.

19.11.06

Sentir e praticar o Jazz - 1ª parte




Aquilo que estabeleci como linhas definidoras do percurso e do que tento pôr em prática, e que penso ser similar ou conter afinidades com o modo de encarar o Jazz de outros músicos, vai na esteira e recolhe elementos do rumo praticado e traçado por diversos músicos, desde Charlie Mingus até à actualidade.
A Mingus Dinasty ou o seu Jazz Workshop é um bom exemplo de como uma banda pode servir de escola formativa e pôr em prática a continuação do legado estilístico de um músico, ao mesmo tempo que cumpre as funções de rampa de lançamento para as gerações seguintes de improvisadores e criadores (poderia citar outros casos, como os Jazz Messengers, ou mesmo a Liberation Orchestra de Charlie Haden...).
Foi o caso de uma dupla que acompanhou e gravou com o próprio Mingus durante vários anos, e passou pela Dinasty: o saxofonista George Adams (que tive o prazer de conhecer e conviver algumas semanas em 1980, quando vivi em Roterdão*) e o pianista Don Pullen.
Absorvi das conversas inesquecíveis que mantinha com Adams (recheadas de recomendações e ensinamentos com que me bombardeava pontualmente**), da audição dos seus discos e da observação dos seus concertos, que o Jazz que praticam norteia-se pela compilação e utilização de material consistente (e com características de "terreno fértil" para germinar novas direcções) que é extraído e recolhido de diferentes estilos e correntes de Jazz:

• Uma das vertentes consiste numa ligação estrutural e processual ao MAINSTREAM, como definidor da linguagem jazzística, como denominador comum, assim como o pulsar do SWING (It don't mean a thing if... it isn't there, right?), ambos constituindo o que eu compararia ao "aparelho respiratório";

• Outra componente é a herança essencial contruída pelo BLUES, que corre nas veias do Jazz (e não só, também corre nas veias do Rock'n Roll, R'nB, Soul, Funkye, Rap, Hip-Hop,..), definindo estados de espírito, e componentes emocionais inerentes ao Jazz, e os reflexos da vivência material e espiritual do ser humano, expressos nas WORKSONGS e GOSPEL. Neste caso trata-se do "aparelho circulatório".


• Incontornável porque é inegável a sua influência (mais ou menos notória) sobre a improvisação de uma vasta maioria de músicos desde então, exercida pela renovação genial que Parker e seus pares trouxeram com o BE BOP. Tenho tendência a estabelecer uma ligação visual, pela cor, com o paralelismo da evolução na pintura e artes plásticas (impressionismo, expressionismo, cubismo,...) e o alcançar da modernidade estilística a meio do séc XX.
Patente ao nível melódico, com introdução de um novo fraseado discursivo que incluía notas de passagem não pertencentes à tonalidade de base e que "visitava" as extensões superiores dos acordes (nonas, décimas-primeiras, décimas-terceiras, quer maiores quer menores, 9#,9b,11#, etc..), acordes esses agora "expandidos" resultantes da criatividade musical de Dizzy, Bud Powell e Monk, entre outros, evidenciando as novidades também ao nível harmónico. Funcionam como "agents provocateurs" e agem sobre os sentidos - visão, audição.

• No plano social, a arte enfrenta responsabilidade enquanto agente cultural, forçando o artista a tomar consciência do seu papel perante a sociedade, ao recusar alhear-se egoísticamente ou anular-se numa prática de arte pela arte esvaziada de conteúdo.
A força da irreverência, o direito à indignação, os gritos de revolta libertadora, a abertura das consciências para novas formas de pensar e de encarar a sociedade e o mundo.
A beat generation, os movimentos anti-racistas de Luther King e Malcom X, o "Make Love Not War" dos pacifistas , e enfim, o inconformismo generalizado prenunciaram o aparecimento do FREE JAZZ e da NEW THING.
Penso que a ainda existência de algumas dessas premissas justificam indubitavelmente que elementos dessa estética do Jazz sejam englobados na prática jazzística actual. Porém, não de um modo indiscriminado, aleatório, desprovido de significado, mas encarada pelo músico como uma ferramenta de expressão, de clímax, de alerta, indignação, ou revolta. Cito exemplos dessa utilização nos discursos improvisacionais de George Adams e Don Pullen, ou de Roland Kirk, e de uma forma mais intensa, em Eric Dolphy.
Não pretendo ser redutor e limitar o free a esporádicos aparecimentos pontuais, pois são patentes as suas influências em casos de improvisação colectiva (aqui comum também no Dixieland e New Orleans), ou quando os músicos se propôem improvisar sem se sujeitarem a uma pré-determinada tonalidade, ou instituírem uma estrutura como base de apoio ou pretexto para improvisação, o mesmo se aplicando a uma cadência rítmica fixa ou previamente estabelecida.

• Fim da 1ª parte (continua)
(* e ** - abordarei mais em pormenor no final da 3ª parte estas vivências que desempenharam um importante papel para mim, enquanto músico de Jazz.)
Rui Azul

1.11.06

NO MORE BLUES


Tenho ficado admirado com extrema raridade com que, na "nova" geração de músicos de Jazz, escolhem um BLUES para tema numa Jam Session. Qualquer Song, de formato AABA ou "Rhythm Changes" (assim chamados porque baseados na estrutura harmónica do "I Got Rhythm", de Gershwin), preferencialmente em tempo médio e médio lento (que se torna "ainda" mais lento para o final dos solos...), é uma das escolhas unânimes, pelo que acontecem às meia-dúzias de enfiada, provocando bocejos e debandada entre a assistência a partir de certa altura.
What's up? No More Blues? Porque será que não gostam lá muito de tocar Blues? Será que os acham demasiado simples, só com 12 compassos, uma sequência harmónica facilmente adivinhável? Ou porque nos Blues é necessário colocar uma estética assumidamente "bluesy" (perdoem-me a redundância), com características e ingredientes que não dominam e nos quais não se sentem muito à-vontade? É que os BLUES são um dos pilares essenciais do Jazz, a raiz de onde ele brotou e onde está o seu ADN, como aliás de uma larga maioria das tipologias musicais que se foram ouvindo desde há oitenta e tal anos para cá, porque sem BLUES não teria havido Stevie Wonder, Jim Morrison, Stones, Hendrix, Jethro Tull, Rock'n Roll, Motown, Blue Jeans, Suede Shoes... isto para não ter que relembrar o Boogie-Woogie, Ragtime, Dixieland, Swing, Big Bands, Duke, Basie, Bird, Dizzy, Monk, Miles, Trane,... Only Gershwin, no W.C. Handy? Mas... mesmo os manos George and Ira, também... "Rhapsody in Blue"..., para além do I Got Rhythm (changes)...
E já ouvi argumentações a desfavor (vindas de músicos e de não músicos), tipo: -« Não sei, mas parecem-me sempre a mesma coisa, muito monótonos...» ??? A mesma coisa??? Pois bem, digam-me uma outra forma, uma outra estrutura de acordes, só com 12 compassos (em regra), que da Tónica (I) sobe à Quarta (IV), regressa à Tónica, sobe à Quinta (V), desce para Quarta (IV) e desagua "again" na base, ou seja, estruturalmente bastante básico (também o é juntar amarelo com azul, dá sempre verde, mas esse verde depende do tipo de amarelo e do de azul, see what I mean?), mas mesmo assim, tão "simples", que conseguiu metamoforsear-se em aspectos, arranjos, estéticas tão diversas como (e agora, vão-me perdoar de novo, mas todos os títulos que se seguem são BLUES, o que difere é o tempo (rápido/lento), arranjo, instrumentos, timbres, abordagens, e uma imensidão de características que podem ir da tonalidade ao penteado do cantor, da década ao compositor, da letra (lyrics), à sua ausência, e por aí fora...:
St Louis Blues (W.C. Handy); Rock Around The Clock (Bill Halley & his Comets); All Blues (Miles Davis); Back in USSR (Beatles); Billie's Bounce (Charlie Parker); Cars Hiss By My Window (Doors); Red Top (Lionel Hampton); Sunshine of Your Love (Eric Clapton); Work Song (Nat Adderley); What'd I Say (Ray Charles); Mr P.C. (John Coltrane); Green Onions (Brooker T. Jones); Blue Monk (Thelonious Monk); Cosmik Debris (Frank Zappa); Footprints (Wayne Shorter); Get Off My Back (B.B. King); Tenor Madness (Sonny Rollins); Mellow Yellow (Donovan); GoodBye Porky Pie Hat (Charlie Mingus); Highway Chile (Jimmy Hendrix); Follow Your Heart (John McLaughlin); Señor Blues (Horace Silver); Get Smart Theme (.?..série Olho Vivo); Empty Bed Blues (traditional); The Blues Walk (Clifford Brown); Stormy Monday (John Lee Hooker); Boogie Woogie Blues (Jelly Roll Morton); Blues for Newport (Dave Brubeck); Great Balls of Fire (Jerry Lee Lewis); Night Train (King Curtis); Honky Tonk Woman (Rolling Stones); Whims Of Chambers (Paul Chambers); Johnny B. Good (Little Richard)...
Se conseguiram lembrar-se de uns tantos, são ou não tão díspares como um Ford T e um Jaguar E? Não é?
Eu cá por mim continuo a ter muito prazer em ouvir e tocar BLUES, embora o facto de me chamar Azul não passe apenas de uma curiosa coincidência ...

17.7.06

JAZZ E OS SEUS MÚSICOS EM PORTUGAL

• FIXAÇÕES DE ALGUNS MÚSICOS PORTUGUESES (e não só):

Ao longo de vários anos, resultado do contacto pessoal e directo, fui-me apercebendo que uma larga percentagem dos músicos portugueses que praticam Jazz (nos outros a percentagem é ainda maior) é notoriamente ignorante, ou pelo menos decepcionantemente desconhecedor da História do Jazz, da sua evolução cronológica, das suas correntes estilísticas e respectivos representantes.
Nas escolas onde se ensina e lecciona Jazz só muito recentemente se introduziu a disciplina "História do Jazz". Sei-o, porque uma década atrás propuz-me leccioná-la, acrescentando "& Estética da Improvisação". Em resposta à proposta, na E. de Jazz do Porto dissuadiram-me, afirmando que poucos alunos se inscreveriam nela, e consequentemente, não haveria verba suficiente para me pagarem. Apesar de terem elogiado, tanto a proposta que redigi, como a descrição detalhada da matéria que a disciplina abordaria. Gostaram tanto que me perguntaram se delas poderiam usar extractos para inserir num pedido de subsídio que estavam a preparar para enviar ao Ministério da Cultura ! Mas de História, nada feito ...!!!
Seria inconcebível que uma escola de cinema, por exemplo, não se ministrasse a cadeira de História da 7ª Arte! Frequentei a Faculdade de Arquitectura e a de Belas Artes, e em ambas tinha cadeiras de História e também de Estética. No Conservatório estuda-se História da Música Clássica (e Contemporânea, penso).
No caso do Jazz, não acontece (ou não aconteceu durante anos) o ensino Teórico - Histórico.
Conheço músicos que têm uma vaga ideia que existiu o Dixieland, anos depois o Be-Bop e... chegamos aos nossos dias. «Ah! É verdade, dizem eles, esquecia-me da Fusão!». Lamentável, no mínimo...
Que sucede, então? O candidato a aprendiz de guitarrista, pianista, saxofonista, etc, escolhe o seu Músico de eleição, compra todos os discos gravados por ele que descobrir, edições de partituras com transcrições dos seus solos, começa a tocar com os discos, tira frases nota por nota, compra um instrumento da mesma marca e modelo que o seu ídolo, chegando por vezes ao cúmulo de vestir-se e usar o cabelo de modo idêntico, num esforço patético de se lhe assemelhar em tudo!
Uns 10 a 12 anos atrás, no caso da guitarra, enxameavam hordas de Pat Metheny(s) portugas. Observei casos exibindo a incontornável camisola de riscas horizontais, cabelo grande encaracolado, a mesma guitarra, pedais e efeitos, o mesmo som, tipo de fraseado, etc... Qual o interesse de ouvermos (como diria Zé Duarte) uma espécie de imitação da fotocópia da xerox do Metheny? Também descortinei Al di Meolas e Georges Bensons, entre outros. Indagados se alguma vez teriam ouvido falar de Charlie Christian, Sonny Sharrok, K. Burrell ou Attila Zoller, indubitavelmente obteríamos desses guitarristas com fixações algo como: « Quem?» e que não, que tinham discos de outros guitarristas para além do ídolo, como... como... Paco de Lucia ou John Mc Laughlin.
Mudemos de instrumento, e não faltam teclistas para os quais Hancock, Corea e Jarrett são incontornáveis. Gigantes como Lennie Tristano ou Monk não são escolhas preferenciais para estudo e referências estilísticas de investigação e recolha. Quando pensamos no baixo eléctrico, observamos o processo mais simplificado de todos: antes e após Jaco. Quantas fretless (baixo eléctico sem trastes, como acontece no braço do contrabaixo) se venderam após a originalidade de Pastorious no seio dos Weather Report? Ou a contribuição da sub-espécie Fusion Jazz com o exageradamente utilizado "slap"(técnica que consiste em bater com o polegar numa corda, de um modo percutivo, originando um efeito de acentuação rítmica)? Quem toca ou se inspirou em Steve Swallow?
Passo aos saxofononistas, nos quais me encontro inserido: conheço mais coltraneanos e seguidores de M. Brecker que "sopradores" de outra qualquer reconhecível influência. Aconteceu-me no Festival de Jazz do Porto, em 92, ter sido escolhido para tocar antes de John Surman, talvez um dos nomes mais "fortes", nesse ano. Durante o check-sound, à tarde, tive oportunidade de travar conhecimento com esse excelente Músico britânico.
Tendo-lhe referido que se encontrava entre as minhas principais referências, retorquiu-me: -« Julgava que todos os jovens saxofonistas queriam tocar à Michael Brecker... És o primeiro que me diz isso...». Encontrei-me com Surman diversas vezes a partir dessa ocasião, e trocamos diversas opiniões e experiências no campo de processamento de som para saxofones. Não escrevo isto para me armar ao carapau (nem de corrida nem de passeio), mas tão-somente para ilustrar aquilo que desenvolvia com um caso verídico. Surman é uma das minhas várias influências, que vão de Webster e "Prez" até Rollins, passando por Dexter, os Franks (Foster e Wess) ou outro saxman, que conheci pessoalmente quando vivi na Holanda, de nome George Adams, que acompanhava (em discos) desde as bandas de Mingus, ou aquele que me fez passar da flauta para o sax (tinha eu 18/19 anos), o grande Roland Kirk. São referências minhas, mas nunca enveredei pelo caminho de copiar as suas frases ou de tocar à .... Serviram de alimento, de exemplos, de material de consulta e claro, que algo fica, como que por osmose. Mas tentei sempre seguir as recomendações contidas nos diversos manuais que encomendei à Berklee School of Jazz, e que posso sumariamente sintetizar:
" Escolham e ouçam os Músicos que mais vos agradarem, em diferentes ambientes e integrados em diversas formações (solo absoluto inclusivé), estudem-nos, absorvam essa informação, e transformem e digiram isso combinando com a vossa própria maneira de ser, de viver e de tocar. Reguem a planta que cresce no vosso interior, e acima de tudo, esforcem-se por serem singulares, únicos, distinguíveis, músicos originais com um estilo próprio. Esse é o percurso que fizeram aqueles "gigantes" que vocês hoje admiram. O real valor de um artista está na sua singularidade".
Mas para muitos esse caminho é árduo demais, e se decorarem umas transcrições de solos do Coltrane, se calhar em menos tempo vão dar nas vistas, ou melhor, nos ouvidos...
Mas só em terras em que os amantes de Jazz não são muito numerosos, ou seja: cá pela nossa terra, onde uma cidade com a população do Porto possui um único Clube de Jazz... (honra seja feita ao Hot 5!) Nuestros hermanos, para não ir mais longe, e para dar um só exemplo, na cidade de Valencia (menor que o Porto), usufruem de 3 ou 4 desses locais onde se pratica e disfruta essa forma de arte musical convencionalmente chamada Jazz. Além de outros locais e eventos que periodicamente também o fazem.
É que nas capitais do Jazz, de N.York a Estocolmo, de Paris a Chicago, de S. Francisco a Amsterdam, a fasquia é notoriamente superior, e qualquer jovem saxofonista que debite fraseado Coltrane tipo trabalho que se traz de casa, irá receber súbitos ataques de tosse, desinteresse ou puro abandono do lugar por parte do público, que é constituído por ouvintes mais conhecedores, por melómanos de longa data, enfim por ouvintes que preferem a surpresa de descobrirem um músico com características distintas que mais um dos muitos que, apesar de demonstrarem técnica apurada, esteticamente não transmitem nada de novo ou criativo.
Mas, por cá, ainda conseguem "épater le bourgeois... et plus ça devient vieux, plus ça devient bête". Espero que não por muito tempo mais...
Rui Azul

27.6.06

DJ's SUCKS!

Neste país paga-se melhor a alguém para ir colocando uns discos durante a noite do que a um músico para executar música no seu instrumento, ao vivo!
Comparem o tempo que cada um desses "profissionais" levou para masterizar o seu desempenho... Algo está profundamente errado nisto tudo!!!
Desenvolverei...

5.6.05

JAZZ EM PORTUGAL:

• A AUSÊNCIA DE UMA ESTRUTURA ORGANIZADA:
Neste país, inicia-se a construção das estruturas culturais pelo telhado. É notório em diversas áreas, como por exemplo a Banda Desenhada: eventos aglutinadores surgem anualmente (Festivais da Amadora, do Porto, Cartoon Portugal, etc...). Também com maoir ou menor regularidade, são editados álbuns de autores nacionais, por editoras independentes ou departamentos especializados das maiores. Mas quanto à base, ao fermento, à raiz, ou sejam, as revistas periódicas, os fanzines com certa qualidade... nada. Zero. Nicles. Todos os esforços nesse sentido morreram demasiado prematuramente, por razões de diversa índole que não importam, por ora, para este artigo.
Temos, assim, as super-estruturas, as intermédias, funcionando com alguma regularidade, mas total ausência de actividades disseminadas pelo país, na base, no dia-a-dia, fervilhando e potenciando o aparecimento das inovações, das interacções dos criadores entre si e com a sociedade em geral.
O mesmo se aplica ao Jazz: os festivais brotam como cogumelos, de alguns anos para cá
(de Guimarães a Angra, do Seixal a Matosinhos, de Tomar ao Funchal, da Cidade ao Dia de Verão...) Estes representam a super-estrutura, o telhado, o vértice da pirâmide. Séries de concertos são também promovidos, do CCB ao Rivoli, da CulturGeste à Praça da Erva em Viana, etc... Alguns músicos vêem a sua música editada (no caso da B.D. por uma Baleia Azul, no caso do Jazz por um Trem Azul... um dia ainda lhes ponho um processo...), com mais frequência nos últimos anos, felizmente. Estamos assim, na presença e existência das estruturas intermédias.
Mas, na base, onde a actividade, a frequência, os concertos semanais, as Jam sessions, as sessões de divulgação, dever-se-iam multiplicar, acontecer um pouco por todo lado, o panorama deixa imenso a desejar. Um Hot Club e pouco mais na capital, um outro em Alcobaça, Matosinhos e Braga são os locais onde se pratica e se pode "ouver" Jazz. Contam-se pelos dedos... e ainda sobram... dedos e músicos. Muitos. Sem ter onde tocar, numa base semanal, diária. Que seria fundamental. Indispensável.
Nos nossos parceiros comunitários, encara-se o Jazz como uma forma de cultura. Edilidades municipais desburocratizam os licenciamentos, lançam apoios e incentivos favorecendo o surgimento de locais como clubes e bares onde aconteça Jazz ao vivo. Em 79/80, tocava eu na banda da casa, no B 14 Jazz, em Roterdão, e soube pelos sócios/gerentes que a vereação da cultura da cidade lhes fornecia um subsídio de cinco mil contos (!) para auxiliar ao pagamento dos cachets de músicos estrangeiros. Posso citar alguns, que às Sextas e Sábados, actuavam no mesmo palco que nós, HouseBand (4 Holandeses e 1 Português), nas Quartas, Quintas e Domingos. Músicos como Tete Montoliu, Sun Ra Arkestra, Orsted Pedersen, George Adams/Don Pullen, Frank Wright, Buddy Tate, Andrew Cyrille, entre outros. Em Amsterdão, a associação de músicos de Jazz e Improvisada possui umas instalações, a Bim-Huis, que inclui sala de concertos, bar, sala de exposições, secretaria, além de vários mini-estúdios para aulas e ensaios, e um estúdio de gravação. Uma Casa da Música, só para o Jazz! Que tal? Construída vai para 30 anos... Por cá, nem daqui a 30 teremos algo assim.
É inacreditável que a Câmara de Lisboa ainda não tenha arranjado um novo local para o Hot, de modo a poder caber pelo menos um piano de meia cauda no palco, e um pé direito que permita a um trombonista esticar-se à vontade durante o solo...
Rui Azul

1.6.05

REFLEXÕES ACERCA DO JAZZ (1)


• O prazer ou fruição que experimentamos na audição de um solista é maior:
1 - Se ele demonstrar ser um prolixo executante de escalas, exercícios, malhas, citações, cascatas de bop ou hard-bop licks, a velocidades vertiginosas, dobrando o tempo que a secção rítmica debita, triplicando, quadruplicando (em escassos instantes, é certo), um virtuoso dedilhador
que adora exibir como os seus dedos são aparentados com o speedy gonzalez ou o bip-bip, cometendo proezas (de mau gosto) como tocar parte do Donna Lee, por ex., no meio de uma balada - já vi / ouvi acontecer...
ou
2 - Se nos apercebermos que toca em contenção, escolhendo as alturas para intervir com mais intensidade, intercaladas com momentos mais distensos, usando o silêncio (que também é uma nota) para realçar, ou evidenciar a sucessão do discurso, tal qual faria o mestre Hitchcock para provocar aqueles momentos de suspense, tão essenciais a quem conta uma estória bem contada, fazendo respirações, pausas, ralentis, nos pontos fulcrais ?
• Isto não era um questionário de escolha múltipla, apenas uma figura de retórica que escolhi para abordar este tema. Nunca vos aconteceu ouvir um quarteto tocar de enfiada, como se fossem salvar o pai da forca, quatro ou cinco standards em medium-up tempo, inserindo a malha 47, a 52, a 33 (estas do livro de solos do Coltrane), saltando depois para sequências em ciclo de 4.as (desta vez do Jazz Improvisation do David Baker), prosseguindo alucinantemente para as diminutas, e acabando talvez com o modo lydian (do Lydian Concept by George Russell). E tudo a mata-cavalos, como se o mundo fosse acabar logo a seguir ou tivessem feito uma promessa mística de se penitenciarem a tocar tudo... à bout de soufle! Uff!
Pelo meio, onde ficou a estória? Como descortinar a essência, a personalidade, a originalidade desses músicos, por debaixo da catadupa de exercícios, automatizações digitais (de dedos, não de uns e zeros - you know, bits & bytes... ), mais próximo de um qualquer espectáculo circense ?
O Jazz não é isso. Eles possuem a técnica, mas falta-lhes a alma, a calma, a habilidade de inserir sentimento, vivência, reflexão para serem capazes de contar a sua "estória", ou o seu solo, o seu discurso, de um modo pessoal, diferenciável, de modo a despertarem naqueles que os ouvem a curiosidade da descoberta de algo (que apesar de conhecido - o tema, o swing, a sequência de acordes, etc...) que distingue aquele trompetista, saxofonista, qualquer outro ....ista, dos seus pares.
Numa das últimas edições do Matosinhos em Jazz, no final de um dos concertos, um amigo meu (actor, humorista), disparou-me esta à queima-roupa: « ... Oube lá, parece q'hoje in dia os múzecos de Jazz boum pr'o palco p'ra competir uns c'os outros, p'ra ber quem consegue dar mais nuotas por segundo...». Aquilo deixou-me a pensar, de tão sintomática, ajustada (apesar da cerrada pronúncia tripeira ... propositada, porque ele não fala sempre assim...) foi aquela "boca", ou desabafo. Preferir a técnica em detrimento da estética é borrifar-se para a... ética do Jazz. Ou não?
• O Miles dizia frequentemente para os seus músicos que por vezes são mais importantes as notas que não se dão que as que são tocadas. "Se não tiveres nada de novo ou importante para contar, não toques. E acima de tudo, aprendam a ouvir o silêncio".
O quinteto Miles / Coltrane acabou porque era insuportável para o primeiro ficar entre 7 a 20 minutos à espera que o segundo terminasse o seu solo. Indagado relativamente a isto, John Coltrane retorquiu: « ... I know, man, mas quando estou a solar fico tipo em transe e não sei como parar de tocar...». « .... É muito fácil !» disse Miles - « Basta fazeres isto !...» e ao mesmo tempo exemplificou, imitando o gesto de pura e simplesmente retirar o bocal do saxofone... da boca !
Este episódio verídico antecedeu o fim de um dos mais fabulosos 5tetos que o Jazz já conheceu, tendo recorrido a ele para ilustrar uma das facetas daquilo que abordei, mais atrás.
Rui Azul

A MÚSICA É A MAIS ETÉREA E A MAIS ABASTARDADA DAS ARTES

textos opinativos acerca do Jazz... e aí vai UM...





A MÚSICA É A MAIS ETÉREA E A MAIS ABASTARDADA DAS ARTES.

Penso-o e afirmo-o.
Etérea, pois dada a sua especificidade perfomática, só a Dança e o Teatro se lhe podem aproximar.
O que é a Música - executada ao vivo - senão umas notas, uns acordes, uns ritmos, uns sons, de tal modo etéreos, impalpáveis, que numa fracção de segundo se dissolvem, dando lugar a outros, tão fugazes como os primeiros, e assim sucessivamente, encadeados no tempo até a peça termine. E a assistência, se a houver, bate com a mão direita repetidas vezes na mão esquerda, que permanece estática (em geral).
Não resisto (e vão-me perdoar os leitores por tal desvio) a contar como surgiu o rital de bater palmas no final de um acto perfomático. Segundo parece, foram os chineses, centenas ou mesmo milhares de anos atrás, que, fartos do ritual que se desenrolava no final de uma peça (discurso, representação ou actuação), que consistia na deslocação, em fila, de cada elemento do público até junto dos actores, músicos, oradores, artistas, para lhes manifestarem o apreço com umas palmadinhas nas costas. É evidente que, quanto maior fosse o número de assistentes ou de artistas, mais tempo esse ritual de apreço demoraria, e em pior estado ficavam as costas dos artistas, especialmente com espectadores mais ... eufóricos. De modo que se sintetizou o processo, passando a mão esquerda a simbolizar as costas do performer, e daí ela esperar que a direita vá ao seu encontro.
Aquelas fracções de tempo em que a Música está a ser executada são únicas, irrepetíveis, tal como a corrente de um rio que passa por baixo de uma ponte é sempre diferente a cada segundo que passa. Na Literatura, nas Artes Plásticas, na Fotografia, no Cinema, na Banda Desenhada, para citar algumas das 9 Artes assim consideradas, os momentos de criação e consequente execução da obra artística têm um carácter mais reservado, intimista, longe dos olhares do grande público. Quando está pronta, anuncia-se com alguma pompa (e circunstância) que se vai desvendar o segredo, ou mais prosaicamente, inaugura-se a exposição, apresenta-se o livro, estreia-se o filme. O autor ali fica, apertando a mão de conhecidos e desconhecidos, a ouvir elogios e baboseiras, enquanto o público contempla o resultado do tempo de exílio ou ermitagem do artista. Resultado esse, ready-made, ou seja, o autor já não pode mudar uma vírgula, acrescentar uma pincelada ou um fotograma mais.
Desilusão para nós, espectadores e cómodo para o autor. Desilude porque não podemos aproximarmo-nos do pintor e perguntar-lhe: -« Foi você que pintou estas telas? Pinte lá um bocadito para nós vermos...». Temos que acreditar que sim, que foi ele. Cómodo para ele porque ninguém tem que saber que quando escreveu determinado capítulo estava na sanita, a fazer o que tinha que fazer; ou ainda aqueleoutro que quando pintou certo quadro andava de cuecas pelo atelier, com uma garrafa de Jack Daniel's quase vazia numa mão e um pincel na outra, a pingar amarelo no dedão do pé direito... É, diríamos que não seria muito dignificante para o prestígio da sua obra em geral e para ele próprio, em particular, a pública exibição desses instantâneos de "pura criação".
Só o Músico, e principalmente o Músico de Jazz, não favorece de tais benesses. Não só mostra perante o público que é ele que está ali a tocar (de preferência sem estar só de cuecas), como cria a sua obra nesse momento, espontaneamente (ninguém traz os solos decorados de casa). É como andar no arame, sem rede. Os actores, esses já sentem a presença da rede, pois já conhecem o papel, as deixas, os diálogos, ensaiaram-nas inúmeras vezes e vão repeti-las, noite após noite, do mesmo modo, ou pelo menos com raras, subtis e imperceptíveis alterações. Um pouco monótono, é certo, mas pelo menos o público vai mudando a cada actuação... No mundo das artes em geral e nas do espectáculo em particular, os Jazzmen são uns verdadeiros cascadeurs*. Não que arrisquem a vida, como aqueles, mas uma noite má ou desinspirada pode trazer futuros dissabores, se houver críticos entre a audiência. Complacência e tolerância são palavras que não existem no seu dicionário.
Bom, dirão vocês, e então os discos?
As gravações? Ainda bem que as há, porque para além de não ser prático e economicamente imcomportável, é impossível ter, em nossa casa, o quarteto do Thelonious Monk a tocar para nós à hora que nos der na real gana. Mas o Jazz, por essência intrínseca, quer-se ao vivo. Alive and well.
Quando não há, temos os registos, audio e/ou video para matar saudades.
Abastardada porquê?
Imaginem locais públicos - centros comerciais, feiras, esplanadas, cafés - não está sempre uma música qualquer a debitar de uns quaisquer altifalantes? Na praia - não aparece sempre o chato com o "tijolo cantante" a berrar uma qualquer modinha irritante? Na televisão - cada anúncio tem, inexoravelmente, o seu tema - o tema do produto em questão - que, para assistirmos ao noticiário e a um filme, somos obrigados a gramar umas dezenas de vezes, e só nessa noite!
Por acaso nesses locais, nessas situações, são obrigados a presenciar qualquer das outras formas de arte? Teatro na praia? Literatura na hora da bica? Pintura na feira de Valença? Não, só nos impingem música ... e o que é pior, música má, bera, irritante, boçal, para acéfalos ou retardados mentais. Depois não admira que as pessoas tenham perdido o sentido do gosto, o sentido estético da música de qualidade. E a que não a tem, ... é aquela que mais vende. Mais abastardada, sim.
* cascadeurs - misto de duplos de cinema e de saltimbancos, que conduzem motos e viaturas em exibições espectacularmente acrobáticas e arriscadas
Rui Azul