22.11.06

Sentir e praticar o Jazz - 2ª parte

• Estabelecendo o ponto da situação, verificamos:
A estética Jazzística que tomei como definidora do rumo a percorrer é formada por elementos provenientes de diferentes estilos fundamentais dentro da história cronológica do Jazz. Funcionam como as fundações de uma casa, e como pilares de sustentação, temos:
• Mainstream (ou middle-jazz) e Swing
• Blues (Worksongs, Gospel e Early Blues)
• Be Bop (+ Funk Jazz, West Coast e Soul Jazz)
• Free (e New Thing)

acrescentaria:
ETNO JAZZ
Esta outra componente consiste em adoptar elementos e referências pertencentes às músicas étnicas, utilizando escalas menos habituais, como a árabe, bizantina, flamenco, oriental, hindu, as pentatónicas africanas, etc..; introduzir cadências rítmicas em tempos compostos, 5/4, 11/8, 7/4, etc..., variando assim do usual quaternário ou ternário, e recordar que o Jazz alargou-se a sabores latinos, afro-cubanos, com colorações vindas das antilhas, da América do Sul, a Salsa Jazz, Bossa Jazz, assim como é de explorar a variedade tímbrica que fornecem os instrumentos étnicos, shenai, rhaita, flautas de bambú, tablas, timbales, temple blocks, darbooka, djembé, cítara, tamboura, uma miríade infindável de instrumentação utilizável, acrescentando variedade tímbrica alternativa à habitual panóplia usada pelos músicos no Jazz, sem esquecer, claro, os de criação mais contemporânea, que recorrem à electrónica, desde o órgão e o piano eléctrico aos samplers, controladores de sopro MIDI e outros processadores de som digitais.

• Neste ponto vou ao encontro daqueles que defendem que o Jazz que se faz hoje em dia deve reflectir o mundo actual em que estamos inseridos, de e-mails, ipods, gps, software & hardware, para permanecer vivo e actuante, destacando-se daquele que cumpre apenas uma função preservadora, como se de um "museu do Jazz" se tratasse.

• Relativamente à interacção com aqueles para quem a arte é criada e se destina, o músico deve estar atento ao seu público, até porque a sua arte não é um acto egoísta, criando apenas para si próprio, para quem está sobre o palco ou só para um punhado de fãns. Não se leia aqui que defendo que se o deva tornar mais simplista, mais acessível a todos, mais "vendável", mais mercantilista, pois o risco é grande de deixar de ser arte para se tornar um produto de mercado. Também uma posição radical, oposta, não é isenta de tender para a anulação da arte em si, pois penso que fechar-se num hermetismo é o mesmo que adorar o próprio umbigo, auto limitar-se, reduzir o campo de visão, e automaticamente, impedir qualquer tipo de realização artística. Coltrane afirmou: "Penso que a música pode elevar a mentalidade individual, pode desenvolver formas de pensamento superiores".
Por outro lado, algumas convicções que tomamos por inabaláveis aos 25 ou 30 anos podem e tendem a modificar-se, o tempo possibilita que observemos as questões de outras perspectivas, a partir de diferentes ângulos e pontos de vista.
Lembro-me de ver um concerto do Archie Shepp em 75 (76?) na Festa do Avante, ao tempo, ainda na Fil, ou melhor, quase só ouvir, porque entrou de costas para o público, numa atitude visivelmente de superioridade arrogante sobre o público "branco". Fez-nos ouvir o Free que praticava na altura, rude, gutural, enraivecido, revelador do seu modo de ver a sociedade e o mundo, na época.
Volvida uma década e tal depois, o mesmo Shepp brindar-nos-ia com um par de belos álbuns, um de trechos de Charlie Parker reinventados ao seu jeito, apenas com a companhia do contrabaixo do excelente NHOP, infelizmente já desaparecido, e o outro de parceria com Horace Parlan no piano, com deliciosos blues tradicionais, e ambos os registos, se não nos antípodas, porventura estão seguramente a muitos graus de longitude da música que ouvi naquele ano, na FIL. Charles Lloyd é mais um, entre muitos outros exemplos de passagem temporária e datável pelo Free.
Algo paradoxalmente, o mesmo músico pode praticar, em épocas distintas do seu percurso, estilos bem diferentes.

O Jazz é também, e sobretudo, uma música que reflete a vida de quem o toca, expressa sentimentos, emoções e vivências, um autêntico retrato sonoro da personalidade de um músico.
Nisso consiste uma das várias características ímpares inerentes ao Jazz e um dos seus imensos atractivos, para mim e para muitos outros músicos, melómanos e apreciadores em geral desta forma de arte surpreendente.
O "som da surpresa", como alguém lhe chamou.
Fim da 2ª parte (continua)
Rui Azul

nota - as ilustrações e pinturas que acompanham este texto, aliás como todas as publicadas neste blog, são originais do autor, executadas entre 1985 e 2006.

21.11.06

19.11.06

Sentir e praticar o Jazz - 1ª parte




Aquilo que estabeleci como linhas definidoras do percurso e do que tento pôr em prática, e que penso ser similar ou conter afinidades com o modo de encarar o Jazz de outros músicos, vai na esteira e recolhe elementos do rumo praticado e traçado por diversos músicos, desde Charlie Mingus até à actualidade.
A Mingus Dinasty ou o seu Jazz Workshop é um bom exemplo de como uma banda pode servir de escola formativa e pôr em prática a continuação do legado estilístico de um músico, ao mesmo tempo que cumpre as funções de rampa de lançamento para as gerações seguintes de improvisadores e criadores (poderia citar outros casos, como os Jazz Messengers, ou mesmo a Liberation Orchestra de Charlie Haden...).
Foi o caso de uma dupla que acompanhou e gravou com o próprio Mingus durante vários anos, e passou pela Dinasty: o saxofonista George Adams (que tive o prazer de conhecer e conviver algumas semanas em 1980, quando vivi em Roterdão*) e o pianista Don Pullen.
Absorvi das conversas inesquecíveis que mantinha com Adams (recheadas de recomendações e ensinamentos com que me bombardeava pontualmente**), da audição dos seus discos e da observação dos seus concertos, que o Jazz que praticam norteia-se pela compilação e utilização de material consistente (e com características de "terreno fértil" para germinar novas direcções) que é extraído e recolhido de diferentes estilos e correntes de Jazz:

• Uma das vertentes consiste numa ligação estrutural e processual ao MAINSTREAM, como definidor da linguagem jazzística, como denominador comum, assim como o pulsar do SWING (It don't mean a thing if... it isn't there, right?), ambos constituindo o que eu compararia ao "aparelho respiratório";

• Outra componente é a herança essencial contruída pelo BLUES, que corre nas veias do Jazz (e não só, também corre nas veias do Rock'n Roll, R'nB, Soul, Funkye, Rap, Hip-Hop,..), definindo estados de espírito, e componentes emocionais inerentes ao Jazz, e os reflexos da vivência material e espiritual do ser humano, expressos nas WORKSONGS e GOSPEL. Neste caso trata-se do "aparelho circulatório".


• Incontornável porque é inegável a sua influência (mais ou menos notória) sobre a improvisação de uma vasta maioria de músicos desde então, exercida pela renovação genial que Parker e seus pares trouxeram com o BE BOP. Tenho tendência a estabelecer uma ligação visual, pela cor, com o paralelismo da evolução na pintura e artes plásticas (impressionismo, expressionismo, cubismo,...) e o alcançar da modernidade estilística a meio do séc XX.
Patente ao nível melódico, com introdução de um novo fraseado discursivo que incluía notas de passagem não pertencentes à tonalidade de base e que "visitava" as extensões superiores dos acordes (nonas, décimas-primeiras, décimas-terceiras, quer maiores quer menores, 9#,9b,11#, etc..), acordes esses agora "expandidos" resultantes da criatividade musical de Dizzy, Bud Powell e Monk, entre outros, evidenciando as novidades também ao nível harmónico. Funcionam como "agents provocateurs" e agem sobre os sentidos - visão, audição.

• No plano social, a arte enfrenta responsabilidade enquanto agente cultural, forçando o artista a tomar consciência do seu papel perante a sociedade, ao recusar alhear-se egoísticamente ou anular-se numa prática de arte pela arte esvaziada de conteúdo.
A força da irreverência, o direito à indignação, os gritos de revolta libertadora, a abertura das consciências para novas formas de pensar e de encarar a sociedade e o mundo.
A beat generation, os movimentos anti-racistas de Luther King e Malcom X, o "Make Love Not War" dos pacifistas , e enfim, o inconformismo generalizado prenunciaram o aparecimento do FREE JAZZ e da NEW THING.
Penso que a ainda existência de algumas dessas premissas justificam indubitavelmente que elementos dessa estética do Jazz sejam englobados na prática jazzística actual. Porém, não de um modo indiscriminado, aleatório, desprovido de significado, mas encarada pelo músico como uma ferramenta de expressão, de clímax, de alerta, indignação, ou revolta. Cito exemplos dessa utilização nos discursos improvisacionais de George Adams e Don Pullen, ou de Roland Kirk, e de uma forma mais intensa, em Eric Dolphy.
Não pretendo ser redutor e limitar o free a esporádicos aparecimentos pontuais, pois são patentes as suas influências em casos de improvisação colectiva (aqui comum também no Dixieland e New Orleans), ou quando os músicos se propôem improvisar sem se sujeitarem a uma pré-determinada tonalidade, ou instituírem uma estrutura como base de apoio ou pretexto para improvisação, o mesmo se aplicando a uma cadência rítmica fixa ou previamente estabelecida.

• Fim da 1ª parte (continua)
(* e ** - abordarei mais em pormenor no final da 3ª parte estas vivências que desempenharam um importante papel para mim, enquanto músico de Jazz.)
Rui Azul

1.11.06

NO MORE BLUES


Tenho ficado admirado com extrema raridade com que, na "nova" geração de músicos de Jazz, escolhem um BLUES para tema numa Jam Session. Qualquer Song, de formato AABA ou "Rhythm Changes" (assim chamados porque baseados na estrutura harmónica do "I Got Rhythm", de Gershwin), preferencialmente em tempo médio e médio lento (que se torna "ainda" mais lento para o final dos solos...), é uma das escolhas unânimes, pelo que acontecem às meia-dúzias de enfiada, provocando bocejos e debandada entre a assistência a partir de certa altura.
What's up? No More Blues? Porque será que não gostam lá muito de tocar Blues? Será que os acham demasiado simples, só com 12 compassos, uma sequência harmónica facilmente adivinhável? Ou porque nos Blues é necessário colocar uma estética assumidamente "bluesy" (perdoem-me a redundância), com características e ingredientes que não dominam e nos quais não se sentem muito à-vontade? É que os BLUES são um dos pilares essenciais do Jazz, a raiz de onde ele brotou e onde está o seu ADN, como aliás de uma larga maioria das tipologias musicais que se foram ouvindo desde há oitenta e tal anos para cá, porque sem BLUES não teria havido Stevie Wonder, Jim Morrison, Stones, Hendrix, Jethro Tull, Rock'n Roll, Motown, Blue Jeans, Suede Shoes... isto para não ter que relembrar o Boogie-Woogie, Ragtime, Dixieland, Swing, Big Bands, Duke, Basie, Bird, Dizzy, Monk, Miles, Trane,... Only Gershwin, no W.C. Handy? Mas... mesmo os manos George and Ira, também... "Rhapsody in Blue"..., para além do I Got Rhythm (changes)...
E já ouvi argumentações a desfavor (vindas de músicos e de não músicos), tipo: -« Não sei, mas parecem-me sempre a mesma coisa, muito monótonos...» ??? A mesma coisa??? Pois bem, digam-me uma outra forma, uma outra estrutura de acordes, só com 12 compassos (em regra), que da Tónica (I) sobe à Quarta (IV), regressa à Tónica, sobe à Quinta (V), desce para Quarta (IV) e desagua "again" na base, ou seja, estruturalmente bastante básico (também o é juntar amarelo com azul, dá sempre verde, mas esse verde depende do tipo de amarelo e do de azul, see what I mean?), mas mesmo assim, tão "simples", que conseguiu metamoforsear-se em aspectos, arranjos, estéticas tão diversas como (e agora, vão-me perdoar de novo, mas todos os títulos que se seguem são BLUES, o que difere é o tempo (rápido/lento), arranjo, instrumentos, timbres, abordagens, e uma imensidão de características que podem ir da tonalidade ao penteado do cantor, da década ao compositor, da letra (lyrics), à sua ausência, e por aí fora...:
St Louis Blues (W.C. Handy); Rock Around The Clock (Bill Halley & his Comets); All Blues (Miles Davis); Back in USSR (Beatles); Billie's Bounce (Charlie Parker); Cars Hiss By My Window (Doors); Red Top (Lionel Hampton); Sunshine of Your Love (Eric Clapton); Work Song (Nat Adderley); What'd I Say (Ray Charles); Mr P.C. (John Coltrane); Green Onions (Brooker T. Jones); Blue Monk (Thelonious Monk); Cosmik Debris (Frank Zappa); Footprints (Wayne Shorter); Get Off My Back (B.B. King); Tenor Madness (Sonny Rollins); Mellow Yellow (Donovan); GoodBye Porky Pie Hat (Charlie Mingus); Highway Chile (Jimmy Hendrix); Follow Your Heart (John McLaughlin); Señor Blues (Horace Silver); Get Smart Theme (.?..série Olho Vivo); Empty Bed Blues (traditional); The Blues Walk (Clifford Brown); Stormy Monday (John Lee Hooker); Boogie Woogie Blues (Jelly Roll Morton); Blues for Newport (Dave Brubeck); Great Balls of Fire (Jerry Lee Lewis); Night Train (King Curtis); Honky Tonk Woman (Rolling Stones); Whims Of Chambers (Paul Chambers); Johnny B. Good (Little Richard)...
Se conseguiram lembrar-se de uns tantos, são ou não tão díspares como um Ford T e um Jaguar E? Não é?
Eu cá por mim continuo a ter muito prazer em ouvir e tocar BLUES, embora o facto de me chamar Azul não passe apenas de uma curiosa coincidência ...

28.8.06

JAZZ WORKSHOP


Muitas pessoas, músicos e melómanos me questionam sobre a possibilidade de poderem ter aulas individuais de saxofone, de improvisação, de Jazz, no fundo, mas focalizadas ou aplicadas especificamente a um estilo, a um músico, a um tipo de temas ou até a algumas determinadas dificuldades que encontraram em improvisar determinado standard, em melhorar a sonoridade ou, por exemplo, solar sobre Blues quando acompanham um guitarrista.
Realmente não se encontra facilmente resposta eficiente a este tipo de questões nas escolas de música ou de Jazz, e é concerteza demasiado inscrever-se num curso ou ter aulas colectivas durante um ou vários anos para o efeito, sobretudo se tiverem que chamar o professor à parte no final para enfim conseguirem abordar os assuntos que vos interessam...
Pensando nestas situações, decidi-me por fim disponibilizar-me a transmitir aquilo que sei e que fui (e vou) aprendendo ao longo destes 30 anos como músico e a auxiliar na descoberta das soluções para as dificuldades específicas com que músicos e não-músicos se venham a debater ou que os impeçam de alcançar determinada meta que propuseram a si próprios. ( Ajudar a encontrar, sim, porque estou a anos-luz de saber tudo, e todos os dias aprendo algo novo...)

17.7.06

JAZZ E OS SEUS MÚSICOS EM PORTUGAL

• FIXAÇÕES DE ALGUNS MÚSICOS PORTUGUESES (e não só):

Ao longo de vários anos, resultado do contacto pessoal e directo, fui-me apercebendo que uma larga percentagem dos músicos portugueses que praticam Jazz (nos outros a percentagem é ainda maior) é notoriamente ignorante, ou pelo menos decepcionantemente desconhecedor da História do Jazz, da sua evolução cronológica, das suas correntes estilísticas e respectivos representantes.
Nas escolas onde se ensina e lecciona Jazz só muito recentemente se introduziu a disciplina "História do Jazz". Sei-o, porque uma década atrás propuz-me leccioná-la, acrescentando "& Estética da Improvisação". Em resposta à proposta, na E. de Jazz do Porto dissuadiram-me, afirmando que poucos alunos se inscreveriam nela, e consequentemente, não haveria verba suficiente para me pagarem. Apesar de terem elogiado, tanto a proposta que redigi, como a descrição detalhada da matéria que a disciplina abordaria. Gostaram tanto que me perguntaram se delas poderiam usar extractos para inserir num pedido de subsídio que estavam a preparar para enviar ao Ministério da Cultura ! Mas de História, nada feito ...!!!
Seria inconcebível que uma escola de cinema, por exemplo, não se ministrasse a cadeira de História da 7ª Arte! Frequentei a Faculdade de Arquitectura e a de Belas Artes, e em ambas tinha cadeiras de História e também de Estética. No Conservatório estuda-se História da Música Clássica (e Contemporânea, penso).
No caso do Jazz, não acontece (ou não aconteceu durante anos) o ensino Teórico - Histórico.
Conheço músicos que têm uma vaga ideia que existiu o Dixieland, anos depois o Be-Bop e... chegamos aos nossos dias. «Ah! É verdade, dizem eles, esquecia-me da Fusão!». Lamentável, no mínimo...
Que sucede, então? O candidato a aprendiz de guitarrista, pianista, saxofonista, etc, escolhe o seu Músico de eleição, compra todos os discos gravados por ele que descobrir, edições de partituras com transcrições dos seus solos, começa a tocar com os discos, tira frases nota por nota, compra um instrumento da mesma marca e modelo que o seu ídolo, chegando por vezes ao cúmulo de vestir-se e usar o cabelo de modo idêntico, num esforço patético de se lhe assemelhar em tudo!
Uns 10 a 12 anos atrás, no caso da guitarra, enxameavam hordas de Pat Metheny(s) portugas. Observei casos exibindo a incontornável camisola de riscas horizontais, cabelo grande encaracolado, a mesma guitarra, pedais e efeitos, o mesmo som, tipo de fraseado, etc... Qual o interesse de ouvermos (como diria Zé Duarte) uma espécie de imitação da fotocópia da xerox do Metheny? Também descortinei Al di Meolas e Georges Bensons, entre outros. Indagados se alguma vez teriam ouvido falar de Charlie Christian, Sonny Sharrok, K. Burrell ou Attila Zoller, indubitavelmente obteríamos desses guitarristas com fixações algo como: « Quem?» e que não, que tinham discos de outros guitarristas para além do ídolo, como... como... Paco de Lucia ou John Mc Laughlin.
Mudemos de instrumento, e não faltam teclistas para os quais Hancock, Corea e Jarrett são incontornáveis. Gigantes como Lennie Tristano ou Monk não são escolhas preferenciais para estudo e referências estilísticas de investigação e recolha. Quando pensamos no baixo eléctrico, observamos o processo mais simplificado de todos: antes e após Jaco. Quantas fretless (baixo eléctico sem trastes, como acontece no braço do contrabaixo) se venderam após a originalidade de Pastorious no seio dos Weather Report? Ou a contribuição da sub-espécie Fusion Jazz com o exageradamente utilizado "slap"(técnica que consiste em bater com o polegar numa corda, de um modo percutivo, originando um efeito de acentuação rítmica)? Quem toca ou se inspirou em Steve Swallow?
Passo aos saxofononistas, nos quais me encontro inserido: conheço mais coltraneanos e seguidores de M. Brecker que "sopradores" de outra qualquer reconhecível influência. Aconteceu-me no Festival de Jazz do Porto, em 92, ter sido escolhido para tocar antes de John Surman, talvez um dos nomes mais "fortes", nesse ano. Durante o check-sound, à tarde, tive oportunidade de travar conhecimento com esse excelente Músico britânico.
Tendo-lhe referido que se encontrava entre as minhas principais referências, retorquiu-me: -« Julgava que todos os jovens saxofonistas queriam tocar à Michael Brecker... És o primeiro que me diz isso...». Encontrei-me com Surman diversas vezes a partir dessa ocasião, e trocamos diversas opiniões e experiências no campo de processamento de som para saxofones. Não escrevo isto para me armar ao carapau (nem de corrida nem de passeio), mas tão-somente para ilustrar aquilo que desenvolvia com um caso verídico. Surman é uma das minhas várias influências, que vão de Webster e "Prez" até Rollins, passando por Dexter, os Franks (Foster e Wess) ou outro saxman, que conheci pessoalmente quando vivi na Holanda, de nome George Adams, que acompanhava (em discos) desde as bandas de Mingus, ou aquele que me fez passar da flauta para o sax (tinha eu 18/19 anos), o grande Roland Kirk. São referências minhas, mas nunca enveredei pelo caminho de copiar as suas frases ou de tocar à .... Serviram de alimento, de exemplos, de material de consulta e claro, que algo fica, como que por osmose. Mas tentei sempre seguir as recomendações contidas nos diversos manuais que encomendei à Berklee School of Jazz, e que posso sumariamente sintetizar:
" Escolham e ouçam os Músicos que mais vos agradarem, em diferentes ambientes e integrados em diversas formações (solo absoluto inclusivé), estudem-nos, absorvam essa informação, e transformem e digiram isso combinando com a vossa própria maneira de ser, de viver e de tocar. Reguem a planta que cresce no vosso interior, e acima de tudo, esforcem-se por serem singulares, únicos, distinguíveis, músicos originais com um estilo próprio. Esse é o percurso que fizeram aqueles "gigantes" que vocês hoje admiram. O real valor de um artista está na sua singularidade".
Mas para muitos esse caminho é árduo demais, e se decorarem umas transcrições de solos do Coltrane, se calhar em menos tempo vão dar nas vistas, ou melhor, nos ouvidos...
Mas só em terras em que os amantes de Jazz não são muito numerosos, ou seja: cá pela nossa terra, onde uma cidade com a população do Porto possui um único Clube de Jazz... (honra seja feita ao Hot 5!) Nuestros hermanos, para não ir mais longe, e para dar um só exemplo, na cidade de Valencia (menor que o Porto), usufruem de 3 ou 4 desses locais onde se pratica e disfruta essa forma de arte musical convencionalmente chamada Jazz. Além de outros locais e eventos que periodicamente também o fazem.
É que nas capitais do Jazz, de N.York a Estocolmo, de Paris a Chicago, de S. Francisco a Amsterdam, a fasquia é notoriamente superior, e qualquer jovem saxofonista que debite fraseado Coltrane tipo trabalho que se traz de casa, irá receber súbitos ataques de tosse, desinteresse ou puro abandono do lugar por parte do público, que é constituído por ouvintes mais conhecedores, por melómanos de longa data, enfim por ouvintes que preferem a surpresa de descobrirem um músico com características distintas que mais um dos muitos que, apesar de demonstrarem técnica apurada, esteticamente não transmitem nada de novo ou criativo.
Mas, por cá, ainda conseguem "épater le bourgeois... et plus ça devient vieux, plus ça devient bête". Espero que não por muito tempo mais...
Rui Azul

27.6.06

DJ's SUCKS!

Neste país paga-se melhor a alguém para ir colocando uns discos durante a noite do que a um músico para executar música no seu instrumento, ao vivo!
Comparem o tempo que cada um desses "profissionais" levou para masterizar o seu desempenho... Algo está profundamente errado nisto tudo!!!
Desenvolverei...

20.6.06

6.5.06

We Got Rhythm

A organização do CORTA! 2006 - Festival Int. de Curtas Metragens do Porto lançou-me o desafio que consiste em reinterpretar um tema musical incluído na "original soundtrack" de um filme. A minha escolha acabou por recair na genial banda sonora que George e Ira Gershwin compuseram para "An American In Paris". E, mais precisamente, no tema que encerra, em si mesmo, uma das principais estruturas sobre as quais o Jazz se foi construindo, e cuja sequência métrica e harmónica veio a ser conhecida como "rhythm changes", ou, trocado por miúdos: a estrutura harmónica do I GOT RHYTHM (sendo a outra estrutura nuclear em que o Jazz se apoia, a dos Blues = 12 compassos) .
Bom, não querendo arrastar isto para aspectos de teoria musical, vou apenas dar uma ideia daquilo que pretendo apresentar no festival:
O fio condutor prende-se com o facto de todos nós, mesmo antes de virmos ao mundo, vivermos rodeados de ritmo. Ou, melhor dizendo, de sons que se apresentam sob a forma de sequências repetitivas, a que se convencionou chamar de ritmos. Já no ventre materno temos a companhia do bater do nosso coração e do de nossa mãe. Os nossos progenitores, no acto de nos conceberem, executaram ritmos para alcançarem o clímax, enquanto as suas respirações aumentavam de... ritmo! Aprendemos a andar, o alfabeto, a tabuada, segundo fórmulas rítmicas. Desde as ondas do mar ao tiquetaque dos relógios, das gotas de chuva ao galope de um cavalo, as gargalhadas, as palmas, comboios sobre os carris, máquinas de escrever, o canto dos pássaros, a lista é infinita. Exemplos e extractos sonoros estão incluídos na composição, e escolhi várias imagens que serão projectadas simultaneamente, durante a apresentação, e exporei verbalmente estas noções, mas inexoravelmente, a dado ponto, terei que substituir a expressão verbal pelas notas do meu saxofone (é impossível aos instrumentistas de sopro falar ou cantar ao mesmo tempo que tocam...), que progressivamente irá dando pistas até chegar ao "I Got Rhythm".
Convido-vos a aparecerem (entrada é livre) no auditório da biblioteca Almeida Garrett, no Palácio, próximos dias 19 sexta, pelas 21:30 h, para "ouverem" o resultado...
http://www.corta.pt/2006_pt/index.php?bandas_curtas

4.5.06

singin' & playin' "da" blues

E, para quem gosta de BLUES, dia 8 Maio, 2ª feira, integro a
MINNEMANN BLUES BAND e vamos estar no queimódromo,
depois do Boss AC e dos Orishas, singin' & playin' "da" blues!!

30.3.06

Pirata do Ar (short story)

Aí fica o meu mais recente conto (curto). Fiquem à vontade para comentar, se for caso disso, é claro...


«- Alto! Que ninguém se arme em esperto, se não quer ir desta para melhor! Ei! Tu aí! Sim, tu de boné e farda, trata de mudar a rota e o destino e vamos rumo ao aeroporto de Trípoli, na Líbia! Já!!»
Todos os passageiros abriram as bocas de estupefacção, e fizeram-no com tal sincronismo que mais dava a ideia de o terem ensaiado até à perfeição. Com um ar completamente aparvalhado, o tal de boné e farda ainda esboçou um tímido:
«-Mas, mas...»
«-Nem mas, nem meio mas! Isto é um sequestro e aviso pela última vez que corto as goelas àquele que não colaborar. Tudo quieto e calado!» - berrou o assaltante, enquanto algumas gotas de suor lhe escorriam pela cara, patenteando o seu estado de extremo nervosismo. Vestia um blusão verde tropa, com uma pequena bandeira tricolor alemã num dos ombros, do género daqueles que os freaks e esquerdistas usavam muito nos anos 70. Uns jeans muito coçados, botas da tropa, um lenço árabe à Al Fatah e para rematar, um intimidador facalhão de mato com uma serrilha bem capaz de cortar uma das pernas a um piano de cauda. Ah! e os inevitáveis óculos escuros, claro. Enfim, o género de indumentária que inexoravelmente alertaria a segurança de qualquer aeroporto que se preze, mas o facto é que não foi aquilo que se passou.
«-Mas o treino que... que me deram não in...cluiu... não previu... assim... percursos desse tipo...» gaguejando, ainda se lamentou o tal do boné e farda, tremendo que nem varas verdes e agarrando-se ao manípulo com tanta força que os nós dos dedos ficaram brancos.
«-Bah! Desenrasca-te de qualquer jeito! Se for preciso reabastecer, paramos pelo caminho. Se recusarem a dar-nos combustível, aposto que mudam logo de ideias quando começar a atirar-lhes com um cadáver dum passageiro de dez em dez minutos!».
Uma senhora no extremo oposto do compartimento, que vinha já dando sinais crescentes de poder iniciar um ataque de histeria a qualquer momento, apesar dos esforços do marido, que a seu lado tentava desesperadamente acalmá-la, não se conteve mais e soltou um grito agudíssimo. O som foi prontamente abafado pela mão do não menos aterrorizado esposo, que sem se aperceber continuava a exercer tal pressão sobre a boca e o nariz da pobre mulher que o rosto desta começava a mudar de cor devido à gradual asfixia...
«-Páre, seu idiota!!» disse o sequestrador, dando conta do que sucedia «-Ainda acaba por matá-la e o único que o pode fazer aqui sou eu, e mais ninguém! Entendido?» completou, cuspindo ostensiva, grosseira e sonoramente para o chão.
Completamente a despropósito, veio-me à ideia naquele momento se o facto de os jogadores de futebol estarem constantemente a cuspir para o relvado não teria uma certa quota parte de responsabilidade nessa prática insalubre que se observa um pouco por todo lado, quase exclusivamente por parte da população masculina. Lembrei-me então de uma antiga namorada minha, que abominava positivamente presenciar tal espectáculo, chegando mesmo a interpelar e admoestar o responsável por tal acto hediondo, isto em plena via pública, o que quase nos trouxe dissabores, uma vez por outra, porque os machos latinos não gostam de críticas, pois sabe-se lá porque carga de água, acham que essa tal prática lhes confere uma postura de pretensa... "virilidade". É que há cretinos para todos os gostos...
Enquanto estes pensamentos estranhos e totalmente fora de contexto me assolavam o espírito, dei-me conta que alguém, sem que o assaltante notasse, conseguira efectuar uma chamada por telemóvel. Mantive a secreta esperança que a ligação efectuada não se destinasse apenas a avisar a respectiva mulher que concerteza iria chegar tarde para o jantar...
Quase de imediato, parecendo pressentir uma tal eventualidade, o "pirata" ordenou que todos os passageiros lhe entregassem os telemóveis, carteiras e outros objectos de valor, para o que desatou o lenço que trazia ao pescoço e o transformou numa espécie de saco para conter o saque acumulado.
«-E agora ponha isto a andar, rápido!». Passados instantes, começamos a subir. Ninguém se pronunciava, com medo de represálias, e apenas se ouvia o abafado ronronar do motor. Largos minutos mais tarde, sentimos um estremeção.
«-Que se passa?» gritou, empunhando ameaçadoramente o facalhão.
«-Não podemos subir mais...» respondeu o do boné.
«-Então mantenha-se a esta altitude.». Pelo canto do olho reparei que o careca a meu lado rezava, baixinho. De súbito, do interior do saco-lenço, um dos telemóveis rasgou o pesado e tenso ambiente, uma vez..., outra..., outra ainda...
«-Que raio?... 'Tou?!!» vociferou o assaltante, descobrindo por fim qual o telemóvel que tocava de um modo irritante, a melodia da..."lambada"
«-Ai sim? Sim, 'tou a ver... ainda bem... mas foi mesmo o coronel que mandou? Emissários especiais? Ok, ok, não, tudo bem...claro que sim, vamos aterrar,...quê? Sim, sim, não sei ao certo...», e virando-se para o homem fardado, despejou: «-Desça esta porra! Chegamos a Tripoli!!»
«-Sim, senhor, é para já...».
Iniciamos a lenta descida, e no ar pairava um ambiente de incerteza quanto ao desfecho de toda aquela situação. Quando finalmente nos detivemos, cá em baixo, as portas abriram-se de súbito e dois tipos avantajados envergando camuflados e lenços árabes dirigiram-se ao sequestrador tratando-o por irmão, enquanto soltavam vivas e desejavam longa vida ao coronel Khadaffi.
Num ápice, envolveram o "pirata" nos seus braços que mais pareciam troncos de árvore, retiraram-lhe a faca e o saco das mãos, aplicaram-lhe uma mordaça e enfiaram-no numa camisa de forças! Tão rápido que dava vontade de rebobinar e passar em câmara lenta, se na vida real pudéssemos dispor de tal recurso, para melhor observar certos momentos fugazes, como era o caso.
Retiraram então os lenços da cabeça, e ao despirem os casacos de camuflado pudemos verificar que por baixo envergavam batas brancas. Devolveram todos os pertences aos respectivos proprietários, e após nos desejarem a continuação de um bom dia, afastaram-se pelo vasto hall de entrada do enorme edifício, carregando pelo ar o sequestrador, que se debalde se debatia, esperneando furiosamente.
Todos felicitaram o ascensorista por, apesar de tudo, ter mantido algum sangue frio perante a situação, e quando finalmente abandonávamos o espaçoso elevador que servia os 80 e tal andares do arranha-céus, alguém comentou:
«-Vá lá, nem acabou mal... na semana passada, o meu cunhado aleijou-se mesmo, quando tentou fazer frente a outro doido destes, que raptou toda a gente que durante o intervalo estava nas casas de banho do cinema, pensando que estava a sequestrar o TGV Berlim-Paris...».

Rui Azul

12.3.06

4 supreme saxmen

Também não poderia deixar de mencionar as importantes e fulcrais fontes onde fui "beber" para crescer, "à bout de souffle"...
Da esq. p/ a dir: Bean, mais conhecido por Coleman Hawkins (reconhecem o jovem trompetista, atrás dele, na época com 18 anitos? Acabara de sair da Julliard, para se juntar aos seus ídolos, Bird & Diz!...); depois Newk, com corte à Taxi Driver, o colosso jamaicano, vulgo Sonny Rollins; Rahasan Roland Kirk, secção de sopros in one man (alternava por vezes para a flauta transversal, soprando-a pelo... nariz!... não, não estou no gozo, é mesmo verdade!) ; por último, herdeiro de Mingus, fundador da Dinasty, o inesquecível George Adams, que tive o prazer de conhecer pessoalmente e conviver durante uma série de noites (em 1980) no club B14 Jazz, em Roterdão, no qual eu tocava na Houseband (banda residente do clube), para além de ter desempenhado outras funções, como cozinheiro, pintor de murais/decorador e técnico de som, além de tocar sax na rua, durante o dia... (sabem como é que são os portugueses, a trabalhar no estrangeiro, e ainda por cima ainda não havíamos ingressado na CEE, na época... ia-me desenrascando como podia. Eu queria era estar por dentro da... jazz scene, you know, man, dig it? )

25.2.06

4 tenors



My special thanks to this 4 gentlemen: Ben, Dex, Joe & Prez. Major influence on my sax playing.

19.2.06

Sax surdina ou BIDÉSAX?

Quando deparei com esta nova invenção não sabia se desatar a rir se chorar. A 1ª hipótese venceu e as gargalhadas souberam-me divinalmente. É certo que tinha presente que o que me fez dedicar-me ao saxofone, na minha adolescência, para além da sonoridade e expressividade, tinha sido a sua magnífica forma, quase de nave espacial alienígena (quando observado segundo certas perspectivas, em close picado - tipo do interior dos caças quando sobrevoam a "mothership"... ), mas se, para aprender e treinar sem incomodar os vizinhos, tivesse que tocar num "bidet - shaped horn" ou BIDÉSAX, hoje tocaria French Horn, Bombardino ou Sousafone, para ser mais lusofónico, em vez da corneta que o sr. Adolphe Sax inventou, 166 anos atrás.
Só um nipónico para inventar um "gadjet" com um design tão pavoroso!! Note-se que não estou a criticar a utilidade de uma surdina para os saxofones, que, contrariamente aos seus primos metálicos Brass (trompetes, trombones, etc..), não dispunham de qualquer tipo de acessório que reduzisse a intensidade sonora eficazmente. Dá vontade de perguntar: Desculpe, mas não tem disto noutras cores?...

15.2.06

À Bolina no Bodyspace


Apesar de ter sido editado em 2005, o cd "À Bolina" tem sido objecto de análise sobretudo no ano corrente. Desta feita no especializado Bodyspace, um dos mais rigorosos e atentos sítios acerca dos eventos mais relevantes que surgem no mundo musical. É particularmente gratificante sentirmos que a arte que criamos através da persistência, empenho, esforço, bastantes "directas", notório emagrecimento e algum talento obteve algum reconhecimento por parte de críticos e especialistas imparciais. Ao ponto de não resistir a transcrever os seguintes excertos:
« Do pequeno, mas rico em polémica, mundinho do jazz português, Rui Azul é uma das personalidades menos evidentes mas ao mesmo tempo mais interessantes. ... », e ainda « ...Rui Azul viaja, sózinho, mas confiante no destino. E este disco, surpreendentemente, é uma ilha perdida no jazz português.».
Fica aqui o meu convite para lerem o restante texto e visitarem o interessante sítio chamado Bodyspace

11.2.06

5.2.06

À Bolina n'A Trompa


É espantoso como o bloguniverso está a impôr-se como novíssimo meio de comunicação social, complementando e mesmo substituindo as funções que "deveriam" caber aos tradicionais e instituídos órgãos da imprensa, rádio e televisão, que se alheiam muitas vezes de veicular a informação e divulgação sobre o trabalho dos artistas nacionais, apesar de serem pagos para desempenhar essas funções. Parece evidente que os bloggers possuem mais brio profissional que... os profissionais!
É o caso de Rui Dinis, mentor d' A Trompa, excelente blog acerca da música actual (e não só). Podem dar uma vista de olhos na sua análise do À Bolina e no atento trabalho que ele publica.

4.2.06

Jazz History Map

Para lerem melhor os períodos, cliquem na imagem.
Fiz este mapa cronológico baseado nas minhas pesquisas. É mais fácil ficarmos
com uma ideia mais precisa, ao visualisarmos um gráfico, em vez de um texto.

26.1.06

À Bolina no Mug Music


O cd "À Bolina" teve a honra de análise por parte de um melómano e blogger.
Podem ler o texto e visitar o seu blog clicando em:
Mug Music

25.1.06

Só dão por nós,... lá fora???








San Francisco Global Jazz Radio

É incrível como me descobriram em S. Francisco, Califórnia, onde a Global Jazz Radio destacou o cd "À Bolina" como uma das escolhas de Jazz dessa semana, para além de uma elogiosa crítica ao meu trabalho! No meu País, as estações de rádio nem sabem que eu existo, ou preferem ignorar os Músicos nacionais... E nos E.U.A, o que não faltam são excelentes Jazzmen! Enfim... Mas vejam vocês mesmo e linkem acima...

25.12.05


Monk
nanquim s/ cartolina

Dizzy
pastel s/ cartolina

29.10.05

21.10.05

I HAVE A DREAM por Rui Azul

Reprodução duma obra plástica sob a forma de uma banda desenhada de grande dimensão (180x100 cm) que esteve exposta na XIII Bienal de Arte de V.N. Cerveira, sendo acompanhada de uma banda sonora original ( tema: "Globalize Human Rights", 3ª faixa do CD "À BOLINA" de Rui Azul ), podendo ser "downloadada" - perdoem-me o neologismo - a partir dos links que se encontram na coluna à direita.



"A livre comunicação das opiniões e dos pensamentos é um dos direitos mais preciosos do homem; todo o cidadão pode então falar, escrever, imprimir livremente; ..."
artigo XI da Declaração Universal dos Direitos do Homem


"I have a dream that my four children will one day live in a nation where they will not be judged by the color of their skin but by the content of their character; ..."
Martin Luther King


"Even though states have the primary responsability to promote and protect Human Rights, transnational corporations and other business enterprises, as organs of society, are also responsible for promoting and securing the Human Rights set forth in the Universal Declaration of Human Rights."
World Social Forum in Porto Alegre and World Economic Forum in Davos - Jan 03

"A special emphasis should be given to education designed to make women aware of their rights and to make society at large concious of its duty to respect the Human Rights and fundamental freedoms of women and girl-children; ..."
United Nations declaration to eliminate violence against women


"O Homem nasce livre e em toda a parte está acorrentado."
Jean-Jacques Rousseau

"Globalise respect for Human Rights, globalise justice and globalise accountability for those who abuse rights."
Amnesty International



"O sol, tal como a lua e as estrelas nasce, morre e depois volta sempre. Quem criou todas as coisas também criou o Homem. O Homem nasce e morre mas depois não volta. Nunca regressa."
cântico Denka (tribo centro-africana)

GOSTO PELA PALAVRA - a short story

um dos primeiros contos curtos que tenho vindo a escrever, nos últimos meses...


- Pára de comer as palavras!
Dizia-lhe a professora com o enfado próprio de quem repete o mesmo diariamente e vezes sem conta.
- Alfredo, não se percebe nada daquilo que dizes! E amiúde, sua mãe desdobrava-se em desesperadas e quase patéticas tentativas de alterar a situação. Nada dera resultado. Era superior às suas próprias forças, e com o tempo, transformara-se numa notória forma de dependência.
Alfredo sempre gostara de saborear palavras, e já na primária apreciava o gosto dos ditongos, aprendera a degustar o travo das consoantes, transformando-se num verdadeiro gourmet, primeiro entre agudas e esdrúxulas, depois com advérbios, abordando mais tarde todos os pratos suculentos das polissilábicas, prosseguindo desenfreadamente pelos exóticos agridoces das línguas estrangeiras.
Coleccionava religiosamente enes com til, oós e uús dotados de trema, arrobas, símbolos geométricos, caracteres orientais e outras iguarias para ocasiões festivas, tais como o seu aniversário, o Natal, o dia-de-todos-os-santos, e para quando o seu primo que vivia em Newark os visitava, ano após ano. Gostava especialmente desse primo d'América, embora não fosse realmente seu familiar, pois ele era primo, ao que constava, de uma meia-irmã da sua mãe, que colocara sempre fortes dúvidas sobre a veracidade desse hipotético parentesco. A verdade é que todos o tratavam por "primo", pois também nunca chegaram a saber o seu nome próprio... A predilecção de Alfredo por ele vem do tempo em que o emigrante, apercebendo-se da tendência do rapaz para as letras, começou a trazer-lhe surpresas do outro lado do Atlântico: uma versão bilingue cambodjano-hindú do "Guerra e Paz", todos os exemplares desse ano do diário da comunidade portuguesa radicada em Newark, a lista telefónica do estado do Minnesota, para além de 14 mil folhetos promocionais de um stand de comercialização de alfaias agrícolas de New Jersey.
De início ninguém dera por nada, mas pouco depois de ter ingressado na escola, começaram a aparecer pedaços de papel semi roídos ou lambuzados debaixo dos móveis e dos almofadões do sofá. Os colegas da escola deram o toque final apelidando-o de Alfredo... Alfabeto.
Mas foi quando a sua irmã mais velha precisou de consultar o dicionário para um trabalho da disciplina de Português que o caso começou deveras a preocupá-los: toda a letra P, mais aquelas páginas de outra cor que são relativas às expressões em Latim, haviam desaparecido. É de assinalar a tendência, ainda em precoce idade, para linguagens e idiomas inusuais.
As queixas seguintes provieram de outro irmão de Alfredo que, com incredulidade estampada no rosto, comunicou à restante família que todos os balões, vinhetas e filacteras dos álbuns de banda desenhada que compunham a sua colecção do Tintin tinham sido meticulosamente recortados e extraídos das páginas das aventuras do intrépido repórter, seu cão Milou e seu amigo Capitão Haddock. Por certo este último personagem, nas alturas em que se enfurece, fornecia-lhe os balões mais saborosos, recheados de onomatopeias e símbolos universais que podem facilmente levar ao rubro os pavilhões auriculares duma qualquer freira mais puritana. Mas por falar em vociferações, injúrias e demais terminologia de calão, é necessário reconhecer que Alfredo recusava sistematicamente tocar em palavrões ordinários e outras expressões de baixo teor ético-social, de péssimo sabor, aliás, como ele próprio afirma numas gravações audio que deixou, à laia de memórias ( inicialmente tentou escrevê-las numa espécie de diário autobiográfico, mas acabou por mastigar as páginas à medida que as ia escrevendo...).
Mas desenganem-se se pensam que o consumo se confinava apenas à palavra escrita ou impressa. A expressão verbal foi também, desde cedo, uma das suas fortes adicções. Era frequente vê-lo, a meio das frases, produzir um som semelhante ao de um assobio, só que de fora para dentro, correspondendo ao sugar de um ou outro termo que, evidentemente, não chegava a pronunciar, ao que se seguia um sonoro estalar da língua contra o céu da boca, de pura satisfação. Foi aqui que o vício se voltou contra o viciado, pois enquanto se confinou à grafologia, ao stencil, offset, jacto de tinta, laser, carimbo, às máquinas de escrever, calculadoras, registadoras, enfim, aos caracteres impressos, não vinha mal de maior ao mundo ( à excepção dele próprio, como daquela vez em que tentou ingerir uns cubos de brincar com letras nas faces, o que lhe provocou uma violenta indigestão... ).
A desdita começou quando teve a infeliz ideia de querer provar as palavras directamente da boca das outras pessoas, enfurecendo colegas e familiares. Aproximava-se subrepticiamente quando proferiam algo, e rapidamente, quase encostando a sua boca à deles, aspirava sofregamente. E foi quando tentou esta manobra, numa pomposa cerimónia oficial, com o Presidente da República, que fez transbordar o copo de uma vez por todas. Foi preso, julgado e acusado de comportamento indecente e desviante, ofensas à moral pública e aos bons costumes, assédio sexual na pessoa de um governante, entre várias outras violações a diversos códigos. Mandaram vir os especialistas que o analisaram durante semanas a fio, voltando com o diagnóstico: esquizofrenia indutora de comportamento compulsivo incontrolável, em estado avançado.
Foi internado numa instituição estatal para doenças mentais e raras patologias, onde só lhe forneciam escassas doses de revistas mundanas tipo Hola, com mais de cinco anos sobre a data de tiragem, depois da prévia extracção de quaisquer letras, algarismos ou caracteres.
Nunca mais o vimos.
Lembrei-me de contar a sina de Alfredo porque li por acaso, um dia destes, no jornal, que surgiram dois casos semelhantes: um em Dar-Es-Salam e um outro na Patagónia.
Rui Azul

14.10.05

Crítica Magazine Artes nº27 Março 2005

MAGAZINE ARTES Nº27 MARÇO 2005

Rui Azul - À Bolina

«À Bolina», assim se chama este disco do saxofonista portuense Rui Azul, que, que assina também a produção e gravação, para além de tocar e manipular digitalmente todos os instrumentos que aqui se escutam. Este registo surpreende pelas suas caracteristicas universalistas, com sonoridades ambientais e elementos harmónicos que nos transportam, ou sugerem, locais remotos e paragens exóticas. Muito feliz a introdução de instrumentos de cariz tradicional como o didgeridoo, darbuka, ou a zummara, assim como as "vozes", que criam atmosferas de contrastes e cores, musicalmente bem definidos. Intervencionista na sua temática - a globalização, o ambiente, são alguns dos temas aqui evocados -, Rui Azul, constrói um disco em que o
jazz percorre em harmoniosos ventos os caminhos do mundo. Excelente.
(cd Registos Autónomos, Discantus-Mundo da Canção)

Entrevista Jornal de Notícias 17/01/2005 p. Cultura


Entrevista-Rui Azul
FIZ UM PÉRIPLO POR PARAGENS EXÓTICAS

O músico Rui Azul está de regresso com novo disco, "À Bolina", uma incursão pelo etnojazz
Suão, Pequim, Magrehb são algumas das palavras que podemos ler nos títulos do novo trabalho discográfico de Rui Azul, "À Bolina", pistas que indicam de forma inequivoca o vento que o ajuda a navegar nestas suas viagens: o etnojazz. Ao fim de 30 anos de carreira é um músico muito seguro de si que nos revela o que é que o levou a tocar todos os 10 instrumentos que utilizou neste seu novo CD.

[Jornal de Notícias] Apesar de ser um músico de matriz jazzistica, sempre teve propensão, ainda que pouco libertada, para a música etnográfica. "À Bolina" é o projecto em que assume essa sua faceta?

[Rui Azul] Sim e não. Sim, porque quis fazer o tal périplo, uma circum-navegação aportando em diferentes, remotas e algo exóticas paragens ou escaIas disseminadas pela "world", o que trouxe uma certa coerência ao álbum. Não, porque não assumo nada sem a presença do meu advogado e, a avaliar pelos temas que já compus para o próximo registo, vai acontecer um redireccionamento, apontando para tipologias e estilos mais libertos das sonoridades étnicas. Em "À Bolina" são detectáveis componentes étnicos, ou etnojazz, mas também afinidades com outras estéticas, mesmo até minimal, como em certos loops de marimbas e balaphons que desfilam em background.

[JN] Pela primeira vez não recorre a outros músicos e decide tocar todos os instrumentos. Isso aconteceu por razões estéticas ou económicas?

[RA] A razão prende-se com o estado de frustração que me invadiu quando constatei, em finais de 2003, que as fitas nas bobinas em que gravara uma dúzia e tal de originais se encontravam deterioradas devido ao bolor e humidade. Esses temas destinavam-se a ser editados em cd, e continham a colaboração de vários convidados: Vítor Rua, Hélder Gonçalves, Rui Júnior, Raul Marques, Carlos Azevedo, Filipe Mendes, Pedro Taveira, Quiné, David Lacerda, Paulo Gomes, Miguel Megre, os Mareantes do Rio Douro, entre outros. Significavam seis anos de estúdio, de gravações, de contactos, de trabalho...inglório. Decidi então gravar rapidamente, em "home studio", por minha conta e risco, novos temas (os outros já me começavam a enfastiar...), de modo que tive necessidade de virar a página, pois formara-se um hiato considerável, desde a edição do meu disco anterior..

[JN] Também decidiu agora recorrer à voz, coisa que nunca tinha acontecido...

[RA] Sim, para além dos samples das vozes de Martin Luther King, John Kennedy, de uma cantora "soul" black, e de uma mulher e adolescente africanas, gravei a minha voz, num outro. Utilizando um dos sarcásticos poemas de Mário - Henrique Leiria ("Novos Contos do Gin") e sobre uma sequência quase minimalista de marimbas e vibrafones, decidi fazer de "diseur", entoando "A Família e o Esturjão".Processei a minha voz, baixando o "pitch" em um tom e meio, simulando um baritono, acrescentando ainda mais ironia ao tema.

[JN] As suas improvisações aqui são mais contidas, estendem-se muito menos do que quando toca exclusivamente jazz. O que levou a esta alteração de comportamento? Terá a ver com o facto de tocar todos os instrumentos?

[RA] Não me é muito fácil interpretar esse facto. Quando se refere comparativamente ao jazz, está a referir o mainstream, penso, porque considero que muito do que se pode ouvir neste disco é jazz, pois as fronteiras desta música são extremamente vastas. Penso que utilizo mais o silêncio, entrecortando o discurso melódico, como aconselhava Miles. Acho que está mais depurado, mais sentido e menos tecnicista. Outra das razões prende-se com a vontade de manter os temas mais curtos, pois tive que seleccionar de entre 24 temas que gravei. Tinha material para um triplo..

[JN] Não resistiu a incluir um tema eminentemente jazzistico, "Tea Gee", cheio de fluidos coltraneanos.

[RA] É verdade, estranhos são os sinuosos e inesperados caminhos da criatividade... Agora mais a sério, não me considero (e não me consideram) coltraneano. Associam-me habitualmente mais ao Sonny Rollins, que de facto me influenciou nos primeiros anos.

[JN] Para apresentar este disco ao vivo vais ter de elaborar muitas alterações?

[RA] Nem por isso. As alterações são só a nível das improvisações, sopros e de algumas sequências harmônicas, cujas pistas foram retiradas de modo a obter apenas uma espécie de secção rítmica simplificada, sobre a qual os músicos que me acompanharão irão tocar. Aumentei a duração de cada uma dessas bases dos temas, pois ao vivo os solos são mais extensos e em maior número, mesmo nos temas em que os solos individuais se transformam em diálogo, o que origina sempre ambientes interessantes e inusitados.

por Rui Branco - Jornal de Notícias de 17 Jan 2005 - pág. Cultura

Crítica do PÚBLICO (suplemento Y) 18/02/2005



RUI AZUL À Bolina pontuação: 7 \ 10
Eis um disco agradável, imaginativo, sugestivo e razoavelmente original no panorama das "novas músicas", tendência suave, da música portuguesa. Rui Azul, músico do Porto, realizou sózinho "À Bolina", um álbum de viagens, tema estafado quando os itinerários repetem as rotas do turismo. Não é o caso de "À Bolina". Azul, além de produzir e arranjar, toca saxofone tenor, sax MIDI, flautas, rhaïta, zummara, didgeridoo, darbuka, percussões étnicas, voz, teclados, samplers, sequenciadores, programação e "loops". Ah, sim, também foi ele que gravou, misturou, masterizou, fez o desenho gráfico, a BD os textos. "À Bolina" é um álbum de´boa fusão, entre jazz, "world" imaginária e electrónica sequenciada. Vozes deslocadas no espaço e no tempo, sons híbridos, batidas entre o computacional e o ritual. A escola é óbvia: Musci/Vennosta, Benjamin Lew, Steve Shehan. Mas Azul é bom colorista e sabe combinar os tons, dando de facto pistas para uma viagem interior que é afinal cinema da imaginação. As ilustrações de BD têm algo da "Garagem Hermética" de Moebius. Um passo à frente de Rão Kyao, Ficções e Carlos Maria Trindade/Nuno Canavarro na elaboração de fusões oníricas com âncora, mais ou menos funda, em Portugal.
Fernando Magalhães - discos\roteiro - Público - suplemento Y - 18 fev 2005

10.10.05

Descendência - a short story

Este é mais um dos contos curtos que tenho criado recentemente...

- Irra, que já era demais!
Quando informaram Don Ignazio Felipe de Monasteros Rubicalde y Vega de Torquemada da recente conversão do seu 12º filho ao Budismo e consequente retiro ascético no Butão, este não se conteve e alterou a habitual fleuma e bonomia que caracterizam aqueles cujas posses e bens desafiam qualquer vã tentativa de quantificação ou avaliação contabilística ou mesmo pura e simples enumeração de todos os bens adquiridos, apropriados, recebidos, roubados, espoliados, obtidos através da força bruta, por outros processos menos lícitos ou modos de actuação que irão estar por explicar durante décadas, ou talvez mesmo para sempre.
Mas o desespero de Don Ignazio focalizava-se apenas num único e só desígnio: o de encontrar um herdeiro à altura, um seu descendente que pudesse continuar a sua obra, que soubesse desempenhar eficazmente as funções de grande proprietário, administrando com pulso de ferro todo o seu legado, que lhe seguisse os passos, que tomasse as rédeas dos seus numerosos ranchos e herdades, com manadas de gado e plantações. E tudo isto em hectares e hectares a perder de vista, espalhados por um vasto território que ia desde o Novo México às Honduras, desde Guadalajara ao Panamá, dos Andes ao delta do Orenoco. É que os anos já lhe pesavam e iam-lhe faltando as forças para estalar o chicote que o tornara famoso e temido entre peones, empregados e demais rancheiros da região, pois aplicava a justiça e impunha a disciplina pelas próprias mãos, invariavelmente sob a forma de vergastadas nas costas dos desgraçados que ousassem contrariá-lo ou desobedecer-lhe.
Mas a escolha de um herdeiro esbarrava sempre nas inconvenientes características que apresentavam os diversos indivíduos que constituíam a sua imensa prole. Não que lhe faltasse por onde escolher, portanto, mas quanto mais voltas dava à cabeça menos saída encontrava para o problema.
Um dos outros filhos estaria algures na Europa, ao que parece vivendo de expedientes e negócios obscuros ligados à economia paralela, fazendo com frequência a ligação entre Amesterdão, Berna, Zurique e outras cidades, transportando substâncias psicotrópicas de teor ilícito na Suiça e outros países, mas perfeitamente legais nos Países-Baixos.
Um outro, para dar um exemplo, utilizara os rudimentos que as aulas de piano que fora forçado a ter quando criança lhe forneceram, (uma das manias da sua 3ª esposa, assassinada a mando de um cartel boliviano, como retaliação contra Don Ignazio), para se integrar, como teclista em diversas bandas punk-hard-rock-gótico-trance-techno-urbano-depressivas que pululavam a zona este de Los Angeles, Califórnia.
Um outro ainda, dedicara-se ao alpinismo e acabara por morrer gelado algures a meio da escalada da temível encosta norte do Anapurna, isto a fazer fé num sherpa, o único sobrevivente dessa malograda expedição.
E por aí fora, todos os seus filhos, sem excepção, evidenciavam particulariedades negativas de carácter, impeditivas para o desempenho da função em questão.
É claro, havia sempre a hipótese de legar o seu património a uma das filhas, mas encarava-a como remota, pois o seu arreigado machismo não lhe permitia aceitar uma fêmea à frente dos seus ranchos. Ironicamente, mesmo por aí, a escolha confinava-se entre desmioladas que se entregavam á sedução e engate de meninos ricos que passeavam toda a sua futilidade a bordo de dispendiosos e potentes descapotáveis pelas avenidas de Miami Beach ou Beverly Hills, e duas gémeas que se haviam devotado à vida monástica, ingressando num longínquo convento, o das Carmelitas Trepadoras, cuja povoação mais próxima, escassamente era digna desse nome, estava ausente de qualquer mapa e irremediavelmente perdida nos contrafortes da cordilheira dos Andes. O lado da descendência feminina não apresentava, portanto, qualquer solução viável e o panorama parecia cada vez mais negro ao grande proprietário, à medida que o tempo lhe escasseava.
Foi então que o ignóbil Don Ignazio, observando o fumo que saía das chaminés das cozinhas, se lembrou que os frutos das suas sementes não se limitavam apenas a crescer no pomar legalmente registado, mas também em árvores exteriores àquele, o que, traduzido por miúdos, queria dizer que também tinha bastardos. Existia precisamente um filho, seu e da cozinheira que há mais anos o servia, e todos o sabiam, embora não ousassem afirmá-lo com temor das consequências. Não o reconhecera como filho na época e bastardo continuara a ser, passados... quantos? uns vinte e tantos anos, seguramente, raciocinava Don Ignazio. Concluiu então ser ele a única hipótese para a sua sucessão, e restava informar-se do paradeiro do rapaz e demais pormenores, pelo que mandou chamar a cozinheira à sua presença.
Que sim, que estava vivo e de boa saúde, que bom moço se fizera, e que acabava nesse preciso ano, para grande orgulho de sua mãe, o curso universitário de Gestão Agrária, ou coisa semelhante, o que vinha mesmo a calhar. Nem de propósito. Foram incumbidos os seus advogados de legalizarem a paternidade do jovem e de o avisarem que era aguardado no final do semestre na herdade, para uma importante conversa sobre o seu futuro.
Recém-chegado do seu pequeno quarto do campus universitário da Cidade do México, foi levado sem mais detença à presença de Don Ignazio. Este não conseguiu evitar que transparecesse o espanto que lhe assomou o rosto, quando viu o rapaz entrar, pois era exactamente a sua figura, quando tinha aquela idade. Bom, meu filho é concerteza, pensou o latifundiário com um misto de alívio, ainda alguma incredulidade e uma pontinha de orgulho. É que nenhum dos seus outros filhos se lhe assemelhava tanto.
Tratou de inteirá-lo do seu propósito de o fazer principal herdeiro, lhe passar o testemunho da administração exclusiva da globalidade das suas propriedades e demais património acumulado.
Estupefacto, o jovem licenciado lá foi anuindo, a medo de início, mas progressivamente com crescente à-vontade, à medida que ia interiorizando o alcance e a real extensão da proposta que lhe apresentavam. Pelo lado de Don Ignazio, seria difícil imaginar uma situação que lhe agradasse mais. O rapaz, para além de ser a sua cara chapada, caíra-lhe no goto, pois adivinhava nele, se bem que embrionárias, características de liderança e determinação que o tinham transformado numa das pessoas mais ricas e poderosas da região, se bem que também uma das mais odiadas.
Foram tomadas as diligências necessárias para a transferência de poderes mesmo a tempo, pois a saúde de Don Ignazio só beneficiaria com o abrandamento dos inúmeros afazeres que diariamente o ocupavam.
Foi num desses dias, que após acordar, dirigindo-se à varanda da enorme mansão, reparou na soberba figura do seu herdeiro, montando um puro-sangue criado nas cavalariças da herdade. Dava ordens a uns trabalhadores que instalavam uma espécie de faixa de tela com inscrições, esticando-a entre as duas grandes árvores que ladeavam a entrada principal. Reentrando no quarto, buscou os seus binóculos para poder perceber melhor o que se passava. Pôde então ler o que estava escrito na faixa, agora totalmente esticada: COOPERATIVA AGRÍCOLA EMILIANO ... e invadiu-o uma fulgurante síncope cardíaca.
Conta quem viu, que a primeira pessoa a chegar junto do morto foi a cozinheira, que com um sorriso de satisfação sussurrou ao ouvido do cadáver: "pués... que Viva ZAPATA, Don Ignazio!!!". Rui Azul

9.10.05

excerto de "Uma Viagem Fantástica", BD desenho: R Azul / script: Manuel A Pina (ed. Gec A/30 pg./50 mil ex./1996)

5.6.05

JAZZ EM PORTUGAL:

• A AUSÊNCIA DE UMA ESTRUTURA ORGANIZADA:
Neste país, inicia-se a construção das estruturas culturais pelo telhado. É notório em diversas áreas, como por exemplo a Banda Desenhada: eventos aglutinadores surgem anualmente (Festivais da Amadora, do Porto, Cartoon Portugal, etc...). Também com maoir ou menor regularidade, são editados álbuns de autores nacionais, por editoras independentes ou departamentos especializados das maiores. Mas quanto à base, ao fermento, à raiz, ou sejam, as revistas periódicas, os fanzines com certa qualidade... nada. Zero. Nicles. Todos os esforços nesse sentido morreram demasiado prematuramente, por razões de diversa índole que não importam, por ora, para este artigo.
Temos, assim, as super-estruturas, as intermédias, funcionando com alguma regularidade, mas total ausência de actividades disseminadas pelo país, na base, no dia-a-dia, fervilhando e potenciando o aparecimento das inovações, das interacções dos criadores entre si e com a sociedade em geral.
O mesmo se aplica ao Jazz: os festivais brotam como cogumelos, de alguns anos para cá
(de Guimarães a Angra, do Seixal a Matosinhos, de Tomar ao Funchal, da Cidade ao Dia de Verão...) Estes representam a super-estrutura, o telhado, o vértice da pirâmide. Séries de concertos são também promovidos, do CCB ao Rivoli, da CulturGeste à Praça da Erva em Viana, etc... Alguns músicos vêem a sua música editada (no caso da B.D. por uma Baleia Azul, no caso do Jazz por um Trem Azul... um dia ainda lhes ponho um processo...), com mais frequência nos últimos anos, felizmente. Estamos assim, na presença e existência das estruturas intermédias.
Mas, na base, onde a actividade, a frequência, os concertos semanais, as Jam sessions, as sessões de divulgação, dever-se-iam multiplicar, acontecer um pouco por todo lado, o panorama deixa imenso a desejar. Um Hot Club e pouco mais na capital, um outro em Alcobaça, Matosinhos e Braga são os locais onde se pratica e se pode "ouver" Jazz. Contam-se pelos dedos... e ainda sobram... dedos e músicos. Muitos. Sem ter onde tocar, numa base semanal, diária. Que seria fundamental. Indispensável.
Nos nossos parceiros comunitários, encara-se o Jazz como uma forma de cultura. Edilidades municipais desburocratizam os licenciamentos, lançam apoios e incentivos favorecendo o surgimento de locais como clubes e bares onde aconteça Jazz ao vivo. Em 79/80, tocava eu na banda da casa, no B 14 Jazz, em Roterdão, e soube pelos sócios/gerentes que a vereação da cultura da cidade lhes fornecia um subsídio de cinco mil contos (!) para auxiliar ao pagamento dos cachets de músicos estrangeiros. Posso citar alguns, que às Sextas e Sábados, actuavam no mesmo palco que nós, HouseBand (4 Holandeses e 1 Português), nas Quartas, Quintas e Domingos. Músicos como Tete Montoliu, Sun Ra Arkestra, Orsted Pedersen, George Adams/Don Pullen, Frank Wright, Buddy Tate, Andrew Cyrille, entre outros. Em Amsterdão, a associação de músicos de Jazz e Improvisada possui umas instalações, a Bim-Huis, que inclui sala de concertos, bar, sala de exposições, secretaria, além de vários mini-estúdios para aulas e ensaios, e um estúdio de gravação. Uma Casa da Música, só para o Jazz! Que tal? Construída vai para 30 anos... Por cá, nem daqui a 30 teremos algo assim.
É inacreditável que a Câmara de Lisboa ainda não tenha arranjado um novo local para o Hot, de modo a poder caber pelo menos um piano de meia cauda no palco, e um pé direito que permita a um trombonista esticar-se à vontade durante o solo...
Rui Azul

1.6.05

REFLEXÕES ACERCA DO JAZZ (1)


• O prazer ou fruição que experimentamos na audição de um solista é maior:
1 - Se ele demonstrar ser um prolixo executante de escalas, exercícios, malhas, citações, cascatas de bop ou hard-bop licks, a velocidades vertiginosas, dobrando o tempo que a secção rítmica debita, triplicando, quadruplicando (em escassos instantes, é certo), um virtuoso dedilhador
que adora exibir como os seus dedos são aparentados com o speedy gonzalez ou o bip-bip, cometendo proezas (de mau gosto) como tocar parte do Donna Lee, por ex., no meio de uma balada - já vi / ouvi acontecer...
ou
2 - Se nos apercebermos que toca em contenção, escolhendo as alturas para intervir com mais intensidade, intercaladas com momentos mais distensos, usando o silêncio (que também é uma nota) para realçar, ou evidenciar a sucessão do discurso, tal qual faria o mestre Hitchcock para provocar aqueles momentos de suspense, tão essenciais a quem conta uma estória bem contada, fazendo respirações, pausas, ralentis, nos pontos fulcrais ?
• Isto não era um questionário de escolha múltipla, apenas uma figura de retórica que escolhi para abordar este tema. Nunca vos aconteceu ouvir um quarteto tocar de enfiada, como se fossem salvar o pai da forca, quatro ou cinco standards em medium-up tempo, inserindo a malha 47, a 52, a 33 (estas do livro de solos do Coltrane), saltando depois para sequências em ciclo de 4.as (desta vez do Jazz Improvisation do David Baker), prosseguindo alucinantemente para as diminutas, e acabando talvez com o modo lydian (do Lydian Concept by George Russell). E tudo a mata-cavalos, como se o mundo fosse acabar logo a seguir ou tivessem feito uma promessa mística de se penitenciarem a tocar tudo... à bout de soufle! Uff!
Pelo meio, onde ficou a estória? Como descortinar a essência, a personalidade, a originalidade desses músicos, por debaixo da catadupa de exercícios, automatizações digitais (de dedos, não de uns e zeros - you know, bits & bytes... ), mais próximo de um qualquer espectáculo circense ?
O Jazz não é isso. Eles possuem a técnica, mas falta-lhes a alma, a calma, a habilidade de inserir sentimento, vivência, reflexão para serem capazes de contar a sua "estória", ou o seu solo, o seu discurso, de um modo pessoal, diferenciável, de modo a despertarem naqueles que os ouvem a curiosidade da descoberta de algo (que apesar de conhecido - o tema, o swing, a sequência de acordes, etc...) que distingue aquele trompetista, saxofonista, qualquer outro ....ista, dos seus pares.
Numa das últimas edições do Matosinhos em Jazz, no final de um dos concertos, um amigo meu (actor, humorista), disparou-me esta à queima-roupa: « ... Oube lá, parece q'hoje in dia os múzecos de Jazz boum pr'o palco p'ra competir uns c'os outros, p'ra ber quem consegue dar mais nuotas por segundo...». Aquilo deixou-me a pensar, de tão sintomática, ajustada (apesar da cerrada pronúncia tripeira ... propositada, porque ele não fala sempre assim...) foi aquela "boca", ou desabafo. Preferir a técnica em detrimento da estética é borrifar-se para a... ética do Jazz. Ou não?
• O Miles dizia frequentemente para os seus músicos que por vezes são mais importantes as notas que não se dão que as que são tocadas. "Se não tiveres nada de novo ou importante para contar, não toques. E acima de tudo, aprendam a ouvir o silêncio".
O quinteto Miles / Coltrane acabou porque era insuportável para o primeiro ficar entre 7 a 20 minutos à espera que o segundo terminasse o seu solo. Indagado relativamente a isto, John Coltrane retorquiu: « ... I know, man, mas quando estou a solar fico tipo em transe e não sei como parar de tocar...». « .... É muito fácil !» disse Miles - « Basta fazeres isto !...» e ao mesmo tempo exemplificou, imitando o gesto de pura e simplesmente retirar o bocal do saxofone... da boca !
Este episódio verídico antecedeu o fim de um dos mais fabulosos 5tetos que o Jazz já conheceu, tendo recorrido a ele para ilustrar uma das facetas daquilo que abordei, mais atrás.
Rui Azul


live drumming !...

A MÚSICA É A MAIS ETÉREA E A MAIS ABASTARDADA DAS ARTES

textos opinativos acerca do Jazz... e aí vai UM...





A MÚSICA É A MAIS ETÉREA E A MAIS ABASTARDADA DAS ARTES.

Penso-o e afirmo-o.
Etérea, pois dada a sua especificidade perfomática, só a Dança e o Teatro se lhe podem aproximar.
O que é a Música - executada ao vivo - senão umas notas, uns acordes, uns ritmos, uns sons, de tal modo etéreos, impalpáveis, que numa fracção de segundo se dissolvem, dando lugar a outros, tão fugazes como os primeiros, e assim sucessivamente, encadeados no tempo até a peça termine. E a assistência, se a houver, bate com a mão direita repetidas vezes na mão esquerda, que permanece estática (em geral).
Não resisto (e vão-me perdoar os leitores por tal desvio) a contar como surgiu o rital de bater palmas no final de um acto perfomático. Segundo parece, foram os chineses, centenas ou mesmo milhares de anos atrás, que, fartos do ritual que se desenrolava no final de uma peça (discurso, representação ou actuação), que consistia na deslocação, em fila, de cada elemento do público até junto dos actores, músicos, oradores, artistas, para lhes manifestarem o apreço com umas palmadinhas nas costas. É evidente que, quanto maior fosse o número de assistentes ou de artistas, mais tempo esse ritual de apreço demoraria, e em pior estado ficavam as costas dos artistas, especialmente com espectadores mais ... eufóricos. De modo que se sintetizou o processo, passando a mão esquerda a simbolizar as costas do performer, e daí ela esperar que a direita vá ao seu encontro.
Aquelas fracções de tempo em que a Música está a ser executada são únicas, irrepetíveis, tal como a corrente de um rio que passa por baixo de uma ponte é sempre diferente a cada segundo que passa. Na Literatura, nas Artes Plásticas, na Fotografia, no Cinema, na Banda Desenhada, para citar algumas das 9 Artes assim consideradas, os momentos de criação e consequente execução da obra artística têm um carácter mais reservado, intimista, longe dos olhares do grande público. Quando está pronta, anuncia-se com alguma pompa (e circunstância) que se vai desvendar o segredo, ou mais prosaicamente, inaugura-se a exposição, apresenta-se o livro, estreia-se o filme. O autor ali fica, apertando a mão de conhecidos e desconhecidos, a ouvir elogios e baboseiras, enquanto o público contempla o resultado do tempo de exílio ou ermitagem do artista. Resultado esse, ready-made, ou seja, o autor já não pode mudar uma vírgula, acrescentar uma pincelada ou um fotograma mais.
Desilusão para nós, espectadores e cómodo para o autor. Desilude porque não podemos aproximarmo-nos do pintor e perguntar-lhe: -« Foi você que pintou estas telas? Pinte lá um bocadito para nós vermos...». Temos que acreditar que sim, que foi ele. Cómodo para ele porque ninguém tem que saber que quando escreveu determinado capítulo estava na sanita, a fazer o que tinha que fazer; ou ainda aqueleoutro que quando pintou certo quadro andava de cuecas pelo atelier, com uma garrafa de Jack Daniel's quase vazia numa mão e um pincel na outra, a pingar amarelo no dedão do pé direito... É, diríamos que não seria muito dignificante para o prestígio da sua obra em geral e para ele próprio, em particular, a pública exibição desses instantâneos de "pura criação".
Só o Músico, e principalmente o Músico de Jazz, não favorece de tais benesses. Não só mostra perante o público que é ele que está ali a tocar (de preferência sem estar só de cuecas), como cria a sua obra nesse momento, espontaneamente (ninguém traz os solos decorados de casa). É como andar no arame, sem rede. Os actores, esses já sentem a presença da rede, pois já conhecem o papel, as deixas, os diálogos, ensaiaram-nas inúmeras vezes e vão repeti-las, noite após noite, do mesmo modo, ou pelo menos com raras, subtis e imperceptíveis alterações. Um pouco monótono, é certo, mas pelo menos o público vai mudando a cada actuação... No mundo das artes em geral e nas do espectáculo em particular, os Jazzmen são uns verdadeiros cascadeurs*. Não que arrisquem a vida, como aqueles, mas uma noite má ou desinspirada pode trazer futuros dissabores, se houver críticos entre a audiência. Complacência e tolerância são palavras que não existem no seu dicionário.
Bom, dirão vocês, e então os discos?
As gravações? Ainda bem que as há, porque para além de não ser prático e economicamente imcomportável, é impossível ter, em nossa casa, o quarteto do Thelonious Monk a tocar para nós à hora que nos der na real gana. Mas o Jazz, por essência intrínseca, quer-se ao vivo. Alive and well.
Quando não há, temos os registos, audio e/ou video para matar saudades.
Abastardada porquê?
Imaginem locais públicos - centros comerciais, feiras, esplanadas, cafés - não está sempre uma música qualquer a debitar de uns quaisquer altifalantes? Na praia - não aparece sempre o chato com o "tijolo cantante" a berrar uma qualquer modinha irritante? Na televisão - cada anúncio tem, inexoravelmente, o seu tema - o tema do produto em questão - que, para assistirmos ao noticiário e a um filme, somos obrigados a gramar umas dezenas de vezes, e só nessa noite!
Por acaso nesses locais, nessas situações, são obrigados a presenciar qualquer das outras formas de arte? Teatro na praia? Literatura na hora da bica? Pintura na feira de Valença? Não, só nos impingem música ... e o que é pior, música má, bera, irritante, boçal, para acéfalos ou retardados mentais. Depois não admira que as pessoas tenham perdido o sentido do gosto, o sentido estético da música de qualidade. E a que não a tem, ... é aquela que mais vende. Mais abastardada, sim.
* cascadeurs - misto de duplos de cinema e de saltimbancos, que conduzem motos e viaturas em exibições espectacularmente acrobáticas e arriscadas
Rui Azul

30.5.05


o autor nos trópicos...

3.12.04

Navegar contra os ventos - À BOLINA

A Registos Autónomos e a Discantus-Mundo da Canção apresentam o conjunto de 15 novos originais que formam o mais recente álbum, "À BOLINA", do músico RUI AZUL, lançado em Portugal em Março deste ano.
Trata-se de um registo a solo do saxofonista portuense já com 30 anos de carreira, que traça aqui novas direcções, sulcando rotas inovadoras e raramente sulcadas, em águas territoriais da Música Portuguesa.
Como o título sugere, existe um paralelismo entre a arte náutica de velejar contra o vento e a persistência do músico em apontar rotas menos comerciais, enfrentando ventos que amiúde não sopram de feição, para aqueles que rumam às latitudes da originalidade na orientação estética musical e às longitudes temperadas pelas influências étnicas, desde as mais remotas até às mais próximas.
Um diário de bordo instrumental, assim poderíamos definir este álbum, que vai singrando a todo o pano, do Mediterrãneo aos mares do Oriente, levando-nos a visitar paragens remotas e cenários exóticos.
Rui Azul, além de tocar sax tenor, MIDI wind controller, instrumentos de sopro e de percussão étnicos, assina igualmente a gravação, misturas, masterização e design gráfico da capa e do booklet, assim como a execução e manipulação digital da totalidade dos instrumentos e sonoridades diversas que podemos ouvir neste CD.
É devido às suas características independentes, "navegando fora das rotas mais comerciais", que se torna fulcral a contribuição da comunicação social, dos seus jornalistas, radialistas, comentadores e divulgadores culturais, que ao analisarem, interpretarem, revelarem e destacarem o trabalho produzido pelos criadores portugueses, contribuem de facto para a valorização do panorama musical e cultural do nosso Paí­s.

Registos Autónomos