17.7.06

JAZZ E OS SEUS MÚSICOS EM PORTUGAL

• FIXAÇÕES DE ALGUNS MÚSICOS PORTUGUESES (e não só):

Ao longo de vários anos, resultado do contacto pessoal e directo, fui-me apercebendo que uma larga percentagem dos músicos portugueses que praticam Jazz (nos outros a percentagem é ainda maior) é notoriamente ignorante, ou pelo menos decepcionantemente desconhecedor da História do Jazz, da sua evolução cronológica, das suas correntes estilísticas e respectivos representantes.
Nas escolas onde se ensina e lecciona Jazz só muito recentemente se introduziu a disciplina "História do Jazz". Sei-o, porque uma década atrás propuz-me leccioná-la, acrescentando "& Estética da Improvisação". Em resposta à proposta, na E. de Jazz do Porto dissuadiram-me, afirmando que poucos alunos se inscreveriam nela, e consequentemente, não haveria verba suficiente para me pagarem. Apesar de terem elogiado, tanto a proposta que redigi, como a descrição detalhada da matéria que a disciplina abordaria. Gostaram tanto que me perguntaram se delas poderiam usar extractos para inserir num pedido de subsídio que estavam a preparar para enviar ao Ministério da Cultura ! Mas de História, nada feito ...!!!
Seria inconcebível que uma escola de cinema, por exemplo, não se ministrasse a cadeira de História da 7ª Arte! Frequentei a Faculdade de Arquitectura e a de Belas Artes, e em ambas tinha cadeiras de História e também de Estética. No Conservatório estuda-se História da Música Clássica (e Contemporânea, penso).
No caso do Jazz, não acontece (ou não aconteceu durante anos) o ensino Teórico - Histórico.
Conheço músicos que têm uma vaga ideia que existiu o Dixieland, anos depois o Be-Bop e... chegamos aos nossos dias. «Ah! É verdade, dizem eles, esquecia-me da Fusão!». Lamentável, no mínimo...
Que sucede, então? O candidato a aprendiz de guitarrista, pianista, saxofonista, etc, escolhe o seu Músico de eleição, compra todos os discos gravados por ele que descobrir, edições de partituras com transcrições dos seus solos, começa a tocar com os discos, tira frases nota por nota, compra um instrumento da mesma marca e modelo que o seu ídolo, chegando por vezes ao cúmulo de vestir-se e usar o cabelo de modo idêntico, num esforço patético de se lhe assemelhar em tudo!
Uns 10 a 12 anos atrás, no caso da guitarra, enxameavam hordas de Pat Metheny(s) portugas. Observei casos exibindo a incontornável camisola de riscas horizontais, cabelo grande encaracolado, a mesma guitarra, pedais e efeitos, o mesmo som, tipo de fraseado, etc... Qual o interesse de ouvermos (como diria Zé Duarte) uma espécie de imitação da fotocópia da xerox do Metheny? Também descortinei Al di Meolas e Georges Bensons, entre outros. Indagados se alguma vez teriam ouvido falar de Charlie Christian, Sonny Sharrok, K. Burrell ou Attila Zoller, indubitavelmente obteríamos desses guitarristas com fixações algo como: « Quem?» e que não, que tinham discos de outros guitarristas para além do ídolo, como... como... Paco de Lucia ou John Mc Laughlin.
Mudemos de instrumento, e não faltam teclistas para os quais Hancock, Corea e Jarrett são incontornáveis. Gigantes como Lennie Tristano ou Monk não são escolhas preferenciais para estudo e referências estilísticas de investigação e recolha. Quando pensamos no baixo eléctrico, observamos o processo mais simplificado de todos: antes e após Jaco. Quantas fretless (baixo eléctico sem trastes, como acontece no braço do contrabaixo) se venderam após a originalidade de Pastorious no seio dos Weather Report? Ou a contribuição da sub-espécie Fusion Jazz com o exageradamente utilizado "slap"(técnica que consiste em bater com o polegar numa corda, de um modo percutivo, originando um efeito de acentuação rítmica)? Quem toca ou se inspirou em Steve Swallow?
Passo aos saxofononistas, nos quais me encontro inserido: conheço mais coltraneanos e seguidores de M. Brecker que "sopradores" de outra qualquer reconhecível influência. Aconteceu-me no Festival de Jazz do Porto, em 92, ter sido escolhido para tocar antes de John Surman, talvez um dos nomes mais "fortes", nesse ano. Durante o check-sound, à tarde, tive oportunidade de travar conhecimento com esse excelente Músico britânico.
Tendo-lhe referido que se encontrava entre as minhas principais referências, retorquiu-me: -« Julgava que todos os jovens saxofonistas queriam tocar à Michael Brecker... És o primeiro que me diz isso...». Encontrei-me com Surman diversas vezes a partir dessa ocasião, e trocamos diversas opiniões e experiências no campo de processamento de som para saxofones. Não escrevo isto para me armar ao carapau (nem de corrida nem de passeio), mas tão-somente para ilustrar aquilo que desenvolvia com um caso verídico. Surman é uma das minhas várias influências, que vão de Webster e "Prez" até Rollins, passando por Dexter, os Franks (Foster e Wess) ou outro saxman, que conheci pessoalmente quando vivi na Holanda, de nome George Adams, que acompanhava (em discos) desde as bandas de Mingus, ou aquele que me fez passar da flauta para o sax (tinha eu 18/19 anos), o grande Roland Kirk. São referências minhas, mas nunca enveredei pelo caminho de copiar as suas frases ou de tocar à .... Serviram de alimento, de exemplos, de material de consulta e claro, que algo fica, como que por osmose. Mas tentei sempre seguir as recomendações contidas nos diversos manuais que encomendei à Berklee School of Jazz, e que posso sumariamente sintetizar:
" Escolham e ouçam os Músicos que mais vos agradarem, em diferentes ambientes e integrados em diversas formações (solo absoluto inclusivé), estudem-nos, absorvam essa informação, e transformem e digiram isso combinando com a vossa própria maneira de ser, de viver e de tocar. Reguem a planta que cresce no vosso interior, e acima de tudo, esforcem-se por serem singulares, únicos, distinguíveis, músicos originais com um estilo próprio. Esse é o percurso que fizeram aqueles "gigantes" que vocês hoje admiram. O real valor de um artista está na sua singularidade".
Mas para muitos esse caminho é árduo demais, e se decorarem umas transcrições de solos do Coltrane, se calhar em menos tempo vão dar nas vistas, ou melhor, nos ouvidos...
Mas só em terras em que os amantes de Jazz não são muito numerosos, ou seja: cá pela nossa terra, onde uma cidade com a população do Porto possui um único Clube de Jazz... (honra seja feita ao Hot 5!) Nuestros hermanos, para não ir mais longe, e para dar um só exemplo, na cidade de Valencia (menor que o Porto), usufruem de 3 ou 4 desses locais onde se pratica e disfruta essa forma de arte musical convencionalmente chamada Jazz. Além de outros locais e eventos que periodicamente também o fazem.
É que nas capitais do Jazz, de N.York a Estocolmo, de Paris a Chicago, de S. Francisco a Amsterdam, a fasquia é notoriamente superior, e qualquer jovem saxofonista que debite fraseado Coltrane tipo trabalho que se traz de casa, irá receber súbitos ataques de tosse, desinteresse ou puro abandono do lugar por parte do público, que é constituído por ouvintes mais conhecedores, por melómanos de longa data, enfim por ouvintes que preferem a surpresa de descobrirem um músico com características distintas que mais um dos muitos que, apesar de demonstrarem técnica apurada, esteticamente não transmitem nada de novo ou criativo.
Mas, por cá, ainda conseguem "épater le bourgeois... et plus ça devient vieux, plus ça devient bête". Espero que não por muito tempo mais...
Rui Azul

3 comments:

Shara said...

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Sergio Castro said...

Rapaziada

Lamento não estar incondicionalmente de acordo (já estive durante muitos anos), mas, mais ou menos recentemente descobri que alguns DJs podem chegar a ser realmente geniais no seu ‘metier’. Para começar, têm (os bons) uma noção e um domínio sobre o tempo e o ‘timing’ que falha em alguns dos que muitas vezes consideramos bons músicos e que, sem dúvida, são excelentes executantes de escalas complicadas ou melhores criadores de melodia, harmonia e sonoridade. Os bons DJs, que não são muitos provavelmente, manipulam os ‘loops’, ‘samples’ individuais e a resposta temporal dos seus efeitos de retardo com uma mestria que é, em muitos casos, invejável. É que, possivelmente,o que empurra um jovem para uma carreira de DJ, é um processo mental não muito diferente do que levou alguns dos mais reputados percussionistas a enveredar pelo caminho de escolher a bateria, as congas ou as ‘rumberas’ como seu instrumento de eleição. Só que a tecnologia se disponibilizou e uns quantos souberam agarrá-la. Por outro lado, se algumas produções saídas das mãos de DJs me resultam francamente atractivas e até insinuantes, devo confessar o horror que me provoca a quase totalidade da “música” que se passa nas discotecas que tenho a infelicidade de ter que visitar, quase sempre por motivos profissionais. O mau gosto e o som que percebo chegam a causar-me náusea.
Não posso é concordar, nem por sombras, com a imoralidade que é a forma como se paga a alguns DJs (poucos) e a alguns músicos (a imensa maioria) em Portugal. Há DJs que cheguem a cobrar quantias 10 ou mais vezes superiores à que cobram bandas de 4 ou 5 elementos, que com uma qualidade indiscutível e com discos no mercado, se têm que sujeitar ao que os clubes que programam música ao vivo, lhes oferecem. Desde logo esse é também o panorama aqui em Espanha, particularmente na Galiza, onde uma banda de jazz ou de rock, só com grande dificuldade encontra quem lhes pague um caché de 500 euros por um 'bolo'. Mas aqui imperam as leis de mercado para nosso desgosto. Os proprietários dos clubes sao afinal os que decidem que investimento lhes é mais rentável. ...E aí parece os DJs nos levam vantagem. Há que mexer o cú e arrepiar caminho, que o 'muro das lamentações' não é a melhor solução.
Quanto ao pensamento do José Gomes Ferreira só posso corroborá-lo com toda a força de que ainda sou capaz. Nesse país – às vezes é curioso olhá-lo desde fora, para não perder a perspectiva – uns quantos foram apadrinhados, adaptados e, posteriormente, enquistadamente adoptados pelo ‘regime’, enquanto a imensa maioria tem que inventar para sobreviver. Isto é, pouco cambio desde 1967. Provavelmente o defeito está na raiz... e isso transporta-nos para esta última análise do Rui. Quantas vezes Rui, brincámos com este tema em conversas?... Em Portugal ainda há muitos que só olham para o espelho, depois de previamente terem nele colocado uma foto retocada de quando tinham 20 anos menos.
Sigamos teimando. Vou colocar a direcção deste ‘blog’ no nosso 'site'. Aqui há tomate, como costumamos dizer deste lado do Minho.

Um abraço

Anonymous said...

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