1.6.05

A MÚSICA É A MAIS ETÉREA E A MAIS ABASTARDADA DAS ARTES

textos opinativos acerca do Jazz... e aí vai UM...





A MÚSICA É A MAIS ETÉREA E A MAIS ABASTARDADA DAS ARTES.

Penso-o e afirmo-o.
Etérea, pois dada a sua especificidade perfomática, só a Dança e o Teatro se lhe podem aproximar.
O que é a Música - executada ao vivo - senão umas notas, uns acordes, uns ritmos, uns sons, de tal modo etéreos, impalpáveis, que numa fracção de segundo se dissolvem, dando lugar a outros, tão fugazes como os primeiros, e assim sucessivamente, encadeados no tempo até a peça termine. E a assistência, se a houver, bate com a mão direita repetidas vezes na mão esquerda, que permanece estática (em geral).
Não resisto (e vão-me perdoar os leitores por tal desvio) a contar como surgiu o rital de bater palmas no final de um acto perfomático. Segundo parece, foram os chineses, centenas ou mesmo milhares de anos atrás, que, fartos do ritual que se desenrolava no final de uma peça (discurso, representação ou actuação), que consistia na deslocação, em fila, de cada elemento do público até junto dos actores, músicos, oradores, artistas, para lhes manifestarem o apreço com umas palmadinhas nas costas. É evidente que, quanto maior fosse o número de assistentes ou de artistas, mais tempo esse ritual de apreço demoraria, e em pior estado ficavam as costas dos artistas, especialmente com espectadores mais ... eufóricos. De modo que se sintetizou o processo, passando a mão esquerda a simbolizar as costas do performer, e daí ela esperar que a direita vá ao seu encontro.
Aquelas fracções de tempo em que a Música está a ser executada são únicas, irrepetíveis, tal como a corrente de um rio que passa por baixo de uma ponte é sempre diferente a cada segundo que passa. Na Literatura, nas Artes Plásticas, na Fotografia, no Cinema, na Banda Desenhada, para citar algumas das 9 Artes assim consideradas, os momentos de criação e consequente execução da obra artística têm um carácter mais reservado, intimista, longe dos olhares do grande público. Quando está pronta, anuncia-se com alguma pompa (e circunstância) que se vai desvendar o segredo, ou mais prosaicamente, inaugura-se a exposição, apresenta-se o livro, estreia-se o filme. O autor ali fica, apertando a mão de conhecidos e desconhecidos, a ouvir elogios e baboseiras, enquanto o público contempla o resultado do tempo de exílio ou ermitagem do artista. Resultado esse, ready-made, ou seja, o autor já não pode mudar uma vírgula, acrescentar uma pincelada ou um fotograma mais.
Desilusão para nós, espectadores e cómodo para o autor. Desilude porque não podemos aproximarmo-nos do pintor e perguntar-lhe: -« Foi você que pintou estas telas? Pinte lá um bocadito para nós vermos...». Temos que acreditar que sim, que foi ele. Cómodo para ele porque ninguém tem que saber que quando escreveu determinado capítulo estava na sanita, a fazer o que tinha que fazer; ou ainda aqueleoutro que quando pintou certo quadro andava de cuecas pelo atelier, com uma garrafa de Jack Daniel's quase vazia numa mão e um pincel na outra, a pingar amarelo no dedão do pé direito... É, diríamos que não seria muito dignificante para o prestígio da sua obra em geral e para ele próprio, em particular, a pública exibição desses instantâneos de "pura criação".
Só o Músico, e principalmente o Músico de Jazz, não favorece de tais benesses. Não só mostra perante o público que é ele que está ali a tocar (de preferência sem estar só de cuecas), como cria a sua obra nesse momento, espontaneamente (ninguém traz os solos decorados de casa). É como andar no arame, sem rede. Os actores, esses já sentem a presença da rede, pois já conhecem o papel, as deixas, os diálogos, ensaiaram-nas inúmeras vezes e vão repeti-las, noite após noite, do mesmo modo, ou pelo menos com raras, subtis e imperceptíveis alterações. Um pouco monótono, é certo, mas pelo menos o público vai mudando a cada actuação... No mundo das artes em geral e nas do espectáculo em particular, os Jazzmen são uns verdadeiros cascadeurs*. Não que arrisquem a vida, como aqueles, mas uma noite má ou desinspirada pode trazer futuros dissabores, se houver críticos entre a audiência. Complacência e tolerância são palavras que não existem no seu dicionário.
Bom, dirão vocês, e então os discos?
As gravações? Ainda bem que as há, porque para além de não ser prático e economicamente imcomportável, é impossível ter, em nossa casa, o quarteto do Thelonious Monk a tocar para nós à hora que nos der na real gana. Mas o Jazz, por essência intrínseca, quer-se ao vivo. Alive and well.
Quando não há, temos os registos, audio e/ou video para matar saudades.
Abastardada porquê?
Imaginem locais públicos - centros comerciais, feiras, esplanadas, cafés - não está sempre uma música qualquer a debitar de uns quaisquer altifalantes? Na praia - não aparece sempre o chato com o "tijolo cantante" a berrar uma qualquer modinha irritante? Na televisão - cada anúncio tem, inexoravelmente, o seu tema - o tema do produto em questão - que, para assistirmos ao noticiário e a um filme, somos obrigados a gramar umas dezenas de vezes, e só nessa noite!
Por acaso nesses locais, nessas situações, são obrigados a presenciar qualquer das outras formas de arte? Teatro na praia? Literatura na hora da bica? Pintura na feira de Valença? Não, só nos impingem música ... e o que é pior, música má, bera, irritante, boçal, para acéfalos ou retardados mentais. Depois não admira que as pessoas tenham perdido o sentido do gosto, o sentido estético da música de qualidade. E a que não a tem, ... é aquela que mais vende. Mais abastardada, sim.
* cascadeurs - misto de duplos de cinema e de saltimbancos, que conduzem motos e viaturas em exibições espectacularmente acrobáticas e arriscadas
Rui Azul

1 comment:

Anonymous said...

Meus amigos ,coloquei mais uma aula grátis no youtube
O assunto é ARTICULAÇÕES JAZZISTAS onde explico os 03 sinais mágicos - > ^ usados pelos instrumentistas de sopro dento do repertório para Big Bands ,quinteto de saxofones e naipe de metais e principalmente pelos saxofonistas solistas dentro do repertório jazzistico e de improvisação ,sendo que estas articulações podem ser usadas dentro da música popular ,chorinho etc...
Espero que esta aula possa ajudar os saxofonistas que estão longe dos grandes centros ou não tiveram ainda a oportunidade de estudar as ARTICULAÇÕES dentro do mundo JAZZISTICO já que a maioria dos métodos como Klosé, Giampierre,Amadeu Russo,Nabor Pires Camargo que trata deste assunto com um enfoque mais ERUDITO .
Como sou oboista e flautista (musica antiga ) conheço bem as diferenças e as necessidades de cada estilo e sendo o saxofone o símbolo do free jazz ainda existe pouco material em vídeo sobre articulação dentro da linguagem jazzista ,embora existam muitos livros com as articulações - > ^ escritas geralmente de origem americana nossos saxofonistas ficam sem entender como é a sonoridade e como fazer estas articulações .Por isso gravei esta vídeo aula com o passo a passo para que todos possam entender como soa e como deve ser feito ao aplicar estas articulações - > ^ em suas interpretações onde ao tocar em naipe se faz EXTREMANENTE necessária o uso de articulações em comum .

Esta vídeo aula é grátis e faz parte da Escola Online de sax-Explicasax

SOM ROUCO e VIBRATOS (07 Partes )
http://www.youtube.com/watch?v=HL1vVKAZpRQ

AULA PARA INICIANTES NO SAX EXPLICANDO A EMBOCADURA,ESCALA,ETC...(07 Partes )
http://www.youtube.com/watch?v=Qs5-NMG-u60

ARTICULAÇÕES JAZZISTICAS NO SAX (06 partes)
I Parte-Articulações jazzísticas no sax
http://www.youtube.com/watch?v=WUcqneo-0lY

Prof.Ivan Meyer
www.explicasax.com.br
Aulas Online de Sax

"Um mundo mágico te espera no link abaixo"

http://explicasax.com.br/forum/viewtopic.php?t=18201&start=0&postdays=0&postorder=asc&highlight