1.6.05

REFLEXÕES ACERCA DO JAZZ (1)


• O prazer ou fruição que experimentamos na audição de um solista é maior:
1 - Se ele demonstrar ser um prolixo executante de escalas, exercícios, malhas, citações, cascatas de bop ou hard-bop licks, a velocidades vertiginosas, dobrando o tempo que a secção rítmica debita, triplicando, quadruplicando (em escassos instantes, é certo), um virtuoso dedilhador
que adora exibir como os seus dedos são aparentados com o speedy gonzalez ou o bip-bip, cometendo proezas (de mau gosto) como tocar parte do Donna Lee, por ex., no meio de uma balada - já vi / ouvi acontecer...
ou
2 - Se nos apercebermos que toca em contenção, escolhendo as alturas para intervir com mais intensidade, intercaladas com momentos mais distensos, usando o silêncio (que também é uma nota) para realçar, ou evidenciar a sucessão do discurso, tal qual faria o mestre Hitchcock para provocar aqueles momentos de suspense, tão essenciais a quem conta uma estória bem contada, fazendo respirações, pausas, ralentis, nos pontos fulcrais ?
• Isto não era um questionário de escolha múltipla, apenas uma figura de retórica que escolhi para abordar este tema. Nunca vos aconteceu ouvir um quarteto tocar de enfiada, como se fossem salvar o pai da forca, quatro ou cinco standards em medium-up tempo, inserindo a malha 47, a 52, a 33 (estas do livro de solos do Coltrane), saltando depois para sequências em ciclo de 4.as (desta vez do Jazz Improvisation do David Baker), prosseguindo alucinantemente para as diminutas, e acabando talvez com o modo lydian (do Lydian Concept by George Russell). E tudo a mata-cavalos, como se o mundo fosse acabar logo a seguir ou tivessem feito uma promessa mística de se penitenciarem a tocar tudo... à bout de soufle! Uff!
Pelo meio, onde ficou a estória? Como descortinar a essência, a personalidade, a originalidade desses músicos, por debaixo da catadupa de exercícios, automatizações digitais (de dedos, não de uns e zeros - you know, bits & bytes... ), mais próximo de um qualquer espectáculo circense ?
O Jazz não é isso. Eles possuem a técnica, mas falta-lhes a alma, a calma, a habilidade de inserir sentimento, vivência, reflexão para serem capazes de contar a sua "estória", ou o seu solo, o seu discurso, de um modo pessoal, diferenciável, de modo a despertarem naqueles que os ouvem a curiosidade da descoberta de algo (que apesar de conhecido - o tema, o swing, a sequência de acordes, etc...) que distingue aquele trompetista, saxofonista, qualquer outro ....ista, dos seus pares.
Numa das últimas edições do Matosinhos em Jazz, no final de um dos concertos, um amigo meu (actor, humorista), disparou-me esta à queima-roupa: « ... Oube lá, parece q'hoje in dia os múzecos de Jazz boum pr'o palco p'ra competir uns c'os outros, p'ra ber quem consegue dar mais nuotas por segundo...». Aquilo deixou-me a pensar, de tão sintomática, ajustada (apesar da cerrada pronúncia tripeira ... propositada, porque ele não fala sempre assim...) foi aquela "boca", ou desabafo. Preferir a técnica em detrimento da estética é borrifar-se para a... ética do Jazz. Ou não?
• O Miles dizia frequentemente para os seus músicos que por vezes são mais importantes as notas que não se dão que as que são tocadas. "Se não tiveres nada de novo ou importante para contar, não toques. E acima de tudo, aprendam a ouvir o silêncio".
O quinteto Miles / Coltrane acabou porque era insuportável para o primeiro ficar entre 7 a 20 minutos à espera que o segundo terminasse o seu solo. Indagado relativamente a isto, John Coltrane retorquiu: « ... I know, man, mas quando estou a solar fico tipo em transe e não sei como parar de tocar...». « .... É muito fácil !» disse Miles - « Basta fazeres isto !...» e ao mesmo tempo exemplificou, imitando o gesto de pura e simplesmente retirar o bocal do saxofone... da boca !
Este episódio verídico antecedeu o fim de um dos mais fabulosos 5tetos que o Jazz já conheceu, tendo recorrido a ele para ilustrar uma das facetas daquilo que abordei, mais atrás.
Rui Azul

4 comments:

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